Peço licença aos leitores do A Vida Secreta para falar de uma assunto delicado, da responsabilidade que cada um de nós tem em ser um exemplo positivo na formação dos nossos pimpolhos. Digo nossos, pois apesar de não ter filhos, sou tia, e faço questão de ser uma referência positiva em sua formação.
Ressalto a nossa responsabilidade individual, pois macaquinhos que somos sempre reparamos no rabo dos outros macacos e nunca no nosso.  Peço que leiam o texto com atenção, opinem nos comentários. Realmente acredito em um futuro melhor, com pessoas menos intolerantes… Eis um assunto que só mudará a partir dos esforços individuais de cada um de nós.
Ontem, enquanto lia meus feeds mais cedo, assisti a um vÃdeo no blog Mulher 7 x 7, Ele Queria Ser Uma Single Lady. Neste vÃdeo, um menino começa a dançar ao som de Single Ladies com as irmãs, quando o pai lembra que ele não é uma “single lady” e o menininho chora copiosamente. Como bem lembrou Martha Mendonça, trata-se de “um vÃdeo sobre como são as crianças antes, bem antes das ideias sexistas tomarem conta de suas mentes”
Este vÃdeo me fez lembrar de outra notÃcia que li recentemente, desta vez no Garotas Modernas. Na verdade, um comentário sobre o buxixo que andam fazendo em torno de Shiloh, filha de Angelina Jolie, que não gosta de usar rosa, usa cabelo curto e prefere roupas de menino.
Lá fora, as revistas ficam discutindo… Uma pedagoga convidada acha “ótimo que Angelina dê liberdade para sua filha experimentar como quer ser vista. Isso é um ótimo presente para a idade em que Shiloh estáâ€. Já uma estilista de celebridades lança seu veneno discordando: “Mas ela precisa fazer Shiloh se vestir como seus irmãos? Esperamos não ver o filho Maddox usando os vestidos que seriam de Shiloh.†(quanta maledicência, meu Deus…)
E enquanto a imprensa fica fazendo alarde aqui e ali sobre o fato de ser saudável ou não o estilo “Tomboy” (menina que se veste tipo menino) adotado pela pequena, Brad Pitt, o pai, dá um show dizendo: “Nós tentamos promover a individualidade (das crianças) ao máximo, não importando quão excêntricas possam serâ€
Será que meu filho é gay?
No entanto, vale lembrar que nem todo menino que se interessa por coisas de menina é (ou será) gay, tanto quanto o contrário. Quem disse que meninas que gostam de brincar de carrinho serão lésbicas? Quem não tem conhecimento na famÃlia (ou entre conhecidos) alguma menina que era um verdadeiro moleque na infância e ao crescer desabrochou em um mulherão super sexy? Ou o extremo oposto, o menino que brincava de bonecas com a irmã (por falta de companhia ou mesmo identificação), mas que  na idade adulta virou um grande paizão de famÃlia?
Lembrei de uma história familiar. Quando pequeno, meu primo preferia brincar de casinha com a irmã, a manusear solitariamente os seus carrinhos. Se era pra brincar sozinho, preferia os video games. Quando certa vez um tio maldoso insinuou que brincar de casinha era “boiolagem” ele respondeu na ponta da lÃngua: “Ih… Mas você é chato, hein tio? Porque menino não pode brincar de casinha, por acaso em uma casa só existe a mãe? E o pai, não faz nada não? Eu pretendo casar e ter filhos, poxa!”. A verdade é que mesmo dando a resposta meio atravessada, meu primo parou de brincar com a irmã. Venceu o preconceito… Infelizmente.
Vale lembrar que meu tio, pai do meu primo,  sempre foi muito colaborativo nas tarefas domésticas, compartilhando os afazeres para poupar minha tia que, professora, tinha duas matrÃculas. Ou seja, para o meu primo, afazeres domésticos nunca foi coisa de “mulherzinha”. Ele hoje  é um rapaz de 20 anos com uma vidinha bem normal, namora a mesma menina a dois anos e não duvido que do jeito que as coisas vão, depois que terminar a faculdade case e realize a própria profecia: Casar e ter filhos.
Creio que é importante lembrar que, ainda que tais atitudes sejam potenciais sinalizadores de uma orientação homossexual (ou não), filhos são sempre filhos e precisam ter nos pais um suporte para um desenvolvimento social adequado, independente da orientação sexual.
Crianças e identidade de gênero
Que mãe não se preocuparia ao imaginar que o filho pode ser discriminado por contrariar o modelo social vigente? Ela bem sabe que o diferente está sujeito a sofrimentos. Por essa razão, a sociedade tenta enquadrar meninos e meninas, desde pequenos, no padrão de comportamento estabelecido para a identidade heterossexual. (…)
A curiosidade sexual se manifesta já a partir dos 2 anos, idade em que as crianças olham os genitais dos coleguinhas para “comparar” e percebem que há os iguais e os diferentes. Há ainda as que repetem comportamentos que assistem na televisão, seja como treino de papéis, seja por brincadeira, seja por mera vontade de experimentar sensações corporais. (…)
Um menino que aparentemente se interessa por assuntos de meninas  ou que apresenta trejeitos efeminados (vice-versa) tem grande possibilidade de ser avaliado somente sob o aspecto sociocultural – e receber um rótulo precocemente. É cedo, de fato, e até imprudente, dizer que ele terá orientação homossexual. (…)
O importante é garantir à criança uma socialização adequada, cuidando para que ele possa transitar bem entre meninos e meninas e para que não se sinta incomodado no grupo do mesmo gênero. Da mesma forma, procurar não fazer cobranças e comparações, nem permitir que outras pessoas debochem dele. (…)
Fonte: Revista Cláudia

Ao longo da infância, da adolescência, da vida… Os estereótipos de masculino (agressivo e viril) e feminino (meigo e doce), tanto quanto os preconceitos relacionados à sexualidade, nos são empurrados tão discretamente goela abaixo, que sequer percebemos se nossas opiniões são nossas mesmo, ou reflexo do meio em que vivemos. De um modo geral a heteronormatividade nos é imposta, nunca é opção. Alguns convivem perfeitamente com ela, outros lutam contra o padrão estabelecido. Ah, se todos pudessem ser felizes vivendo como bem entendessem… Infelizmente a sociedade aponta, achincalha, zomba e sentencia as diferenças.
O filme Ma Vie  en Rose (que em português seria algo como: Minha Vida em Cor de Rosa), conta a história de um menino, Ludovic, que vive em conflito com sua identidade de gênero. Ele acredita ser uma menina no corpo de um menino. No filme, há até uma alegoria interessante sobre como ele entendia o fato (a cegonha que errou os cromossomos – XX para mulheres e XY para homens – na hora de entregar os bebês). De uma maneira muito bonita, ao mesmo tempo bem humorada e dramática, o filme mostra como a famÃlia lida com a experiência, nem sempre da maneira mais positiva para o nosso pequeno Ludo (a cena em que a mãe corta seu cabelo como “menininho” é de levar à s lágrimas).  Já comentei rapidamente sobre ele por aqui. Eis um filme que trata com muito carinho e cuidado este assunto.
Up Date:
O leitor Victor Alves Baptista deu uma ótima dica de leitura alternativa sobre o tema. Trata-se da matéria “É menino ou menina? O que fazer com crianças que acreditam ser do sexo oposto?” da revista SuperInteressante de abril de 2009 edição 264. Vale conferir também!
Entre azul e rosa… Roxo!

Quem lembra do Tinky Winky? O Teletubbie Roxo, que carregava uma bolsa mágica e cujo  triângulo invertido na cabeça diziam fazer alusão a um sÃmbolo gay? Pois então, outro buxixo mundial, rebuliço entre preconceituosos que, na minha opinião, não tinham coisa melhor a fazer. Tinky Winky não passava de um bonequinho desengonçado, que como os outros Teletubbies parecia agir como criança na primeira infância. Fase que as crianças ainda não se identificam por gêneros e preconceitos simplesmente ainda não existem. Talvez por isso consigam brincar de forma tão diversificada.
Particularmente acho que foi feito muito barulho por nada. E mesmo que os criadores dos Teletubbies tivessem alguma mensagem subliminar embutida, acho que esta era a convivência na diversidade. Como só as crianças, antes das idéias preconceituosas que embutimos em suas cabecinhas, sabem viver.
A questão é que nós formamos as nossas crianças. Quanto mais preconceituosos somos, mais carimbamos decalques negativos de nós mesmos, contribuÃmos por criar serzinhos intolerantes, intransigentes…
Entendam, não estou fazendo aqui uma apologia à homossexualidade, mas sim à diversidade. Acho realmente importante que os modelos masculino e feminino sejam apresentados à criança de maneira clara. Só acho que já está na hora das pessoas pararem de estereotipar os gêneros. Quem disse que homem tem que usar azul e mulher tem que usar rosa? Quem disse que menina não pode brincar de carrinho e nem menino com boneca?
E é então que finalizo este texto refazendo o comentário do blog Mulheres 7 x 7 transformando-o em pergunta, justamente para que haja reflexão: “Como são as crianças antes, bem antes das ideias sexistas tomarem conta de suas mentes?” E tendo esta resposta, acho que fica mais fácil entender a nossa parcela de responsabilidade e participação na formação ou deformação desses futuros adultos…