Orgasmo, esse incompreendido

E depois do carnaval, estamos de volta à nossa programação normal. Hoje, temos mais um texto instigante da Julia Reyes refletindo sobre o orgasmo. Eis um assunto em que tudo o que se fale jamais será suficiente, principalmente, porque o orgasmo não é para ser compreendido e sim,  sentido! Leia, opine! Nem dói…

Um manual às avessas

No meio da festa me vejo cercada por mulheres à espera de conselhos para melhorar sua vida sexual. Leio perguntas parecidas no formspring da B. e por aí afora, e também perguntas dos rapazes, muitas, sobre como dar prazer[bb] às suas princesas.

Parece que o orgasmo feminino continua uma grande questão, apesar de há anos as revistas femininas ensinarem inúmeras técnicas para “chegar lá”. Por que será?

Decorar técnicas pode ser útil, mas definitivamente não é sinônimo de salvação. O que me intriga é ver as pessoas esperando que outras lhes dêem dicas sobre o funcionamento do seu próprio corpo e desejos, algo que deveria ser aprendido com experimentação e observação.

A Monday Morning in January with Cindy A., 2001 - By Dr John2005
O orgasmo não é só uma explosão de prazer, mas sobretudo um exercício de conhecimento e autoconhecimentos… Imagem: Dr_John2005, no Flickr

Alguém pergunta se o clitóris só pode ser estimulado manualmente durante a penetração. Ao invés de perguntar isso num site não seria mais produtivo tentar na prática? Além de útil, tão mais gostoso, experimenta assim, presta atenção nas sensações, que áreas são tocadas, distendidas, pressionadas, tenta de outro jeito, e agora, o que você sente?

Prestando atenção no que é mais gostoso em cada posição dá para ir fazendo um mapa do próprio prazer, um mapa muito mais funcional que qualquer manual de revista porque é personalizado, feito sob medida para as reações muito particulares de cada um.

É bom lembrar que no sexo não há certo e errado se o que se faz é saudável, seguro e consensual, então se o seu tesão é na orelha, capricha nos carinhos ali, qual o problema de gozar com carinho na orelha? Eu não vejo nenhum.

Nosso corpo guarda a memória de tudo que vivemos, isso aparece na nossa expressão corporal e no nosso jeito de sentir e reagir. Como a história de cada um é diferente da dos outros, cada corpo tem as suas preferências e aversões. Juntando isso com tudo o que está na nossa cabeça, nossos sentimentos em relação à pessoa que está conosco, nossas lembranças, fantasias e expectativas, fica claro que ninguém está mais capacitado a falar do seu prazer do que você mesmo. É só prestar atenção e não ter medo de tentar.

Ouço também perguntas sobre como indicar suas preferências ao parceiro, e minha resposta não é diferente. Cada um tem um estilo, uns mais bravos, outros dengosos e etc. Como você conduz a sua relação, como o seu parceiro reage ao seu jeito de dizer as coisas? O que funciona pra mim pode não funcionar para você, o importante é tentar se expressar sem ofender os sentimentos do outro e ser o mais sincero possível, principalmente consigo mesmo.

Se você não consegue ou não tem paciência para se auto-analisar, não dá para esperar que outra pessoa faça isso por você. Nem sempre é fácil, há desejos que preferíamos não ter, nossa própria moral se interpondo entre nós e o nosso prazer, coisas que nos envergonham ou que temos dificuldades em aceitar. Pode ser embaraçoso, difícil e até doloroso esse contato muito intenso com a nossa intimidade, mas eu acho que vale a pena.

Quando a gente fica amigo da gente mesmo, amigo pra valer, daqueles para quem não temos segredos e que amamos apesar e com todos os defeitos, fica muito mais fácil achar o caminho dos orgasmos incríveis. Se conhecendo a gente fica menos dependente do desempenho alheio e tem mais ferramentas para ajudar o outro a nos conhecer também.

Não acredito muito em dicas para melhorar a vida sexual, mas se eu fosse dar um conselho, seria esse: não tenham medo de se conhecer bem de perto, nem de errar nem de ousar.

E você? Que conselho daria para alguém que não está satisfeito com a própria vida sexual?

Até a próxima,

Julia Reyes

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Julia Reyes é uma mulher chegando aos quarenta, tem um marido, um filho, um emprego, uma casa, alguns amigos e muitas dúvidas.


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