Ainda com o tema Outubro Rosa, pela prevenção ao câncer de mama
, o texto abaixo é um relato da Charô, uma mulher consciente que teve o cuidado de se autoexaminar,  investigar,  encarar o diagnóstico positivo e buscar tratamento para a cura. A importância deste relato não está no retrato de uma heroÃna super sexy imune a todo mal, mas na delicada fortaleza de ser mulher. O texto enfoca uma das partes mais delicadas (todas não são?) da doença, a libido. em meio a todo este turbilhão de sentimentos e, consequentemente, como isso reflete na vida sexual. É ler e refletir.
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Câncer de Mama e o Sexo – Por Charô
Na casa dos vinte anos, queria mesmo era ser um mulherão. Lingeries, sapatos, acessórios, posições, criatividade, literatura, nenhum esforço era em vão para ser tal qual a capa da revista. Até exercÃcios para ao assoalho pélvico faziam parte da rotina diária. A meta era me tornar perita em… Bem, digamos que consegui.
Chegando aos trinta, houve uma certa calmaria. Minhas parafernálias sexuais foram substituÃdas por um curso de dança do ventre. E quanta felicidade! Ainda que o objetivo não fosse terapêutico, foi impossÃvel prosseguir aprendendo sem confrontar a própria sexualidade, sensualidade. Era hora de aparar as bordas, fazer arremates.
Finalmente descobrira que a sexualidade e a sensualidade não estavam num par de sapatos, na arte de chupar uma pica, em saber se posicionar corretamente de quatro, em participar de maratonas sexuais. Estava ao alcance das mãos e não era mais uma completa estranha.
Foi quando recebi um ignóbil diagnóstico de câncer de mama. Pronto! Ao remover o tumor, tudo aquilo pelo qual tanto batalhara também me seria literalmente extirpado. Meu seio, tal qual o conhecia, seria apenas uma lembrança. Restaria uma cicatriz que me colocava no mesmo patamar de uma personagem de Mary Shelley ou Tim Burton.

A coisa toda foi dramática assim. O motivo é simples: se a psicologia já faz da gente gato e sapato, imagine quantas equações absurdas podem ser tecidas por quem acredita que vai morrer. Ou que, na melhor das hipóteses, sobreviveria para sempre marcado numa sociedade que adora a textura de peles lindamente photoshopadas. Estava realmente decidida, aos 33 anos, a nunca mais fazer sexo. E por um momento foi assim.
Até mesmo por que não havia tempo para outras coisas que não tratamentos, remédios, pomadas. O momento era de egoÃsmo e precisava ser: era preciso olhar para si, se cuidar, se acarinhar. Por um mês, mal tive vontade de me tocar. O seio operado nem hidratante recebia. Toda minha sexualidade e sensualidade eram simplesmente lembranças.
E olha que meu caso foi extremamente simples clinicamente falando. Não retirei todo o seio, ficou apenas uma cicatriz que aos poucos está sumindo. Ainda assim, como cada um sabe onde lhe aperta o sapato, a relativa simplicidade de meu diagnóstico não foi suficiente para me poupar dessa amálgama de sentimentos em relação ao sexo.
Mas a coisa toda não durou um mês. Um dia, meu corpo marcado pediu por sexo. Primeiro, me redescobri. Impressionante como estava tudo ali, apenas adormecido. Depois, permiti que meu marido me tocasse, coisa que ele tanto queria. Estava com saudades, disse-me. E se pareço romântica, peço desculpas. A reaproximação durou mais de mês. E não foi fácil e ainda não é.
Ainda estou em tratamento e a radioterapia cobra seu preço. O seio dói, incha, fica queimado. Como meu tumor não foi bilateral, tenho de conviver com o outro seio ali, sem marcas, como um lembrete, uma comparação. Ademais, é preciso reaprender a se movimentar e a tocar o outro (um dos braços pode ser afetado pela cirúrgia). A conviver com as limitações. Deixar de lado a ilusão de perfeição.
Ainda assim, diria que tá ruim mas tá bom.
Agora, imagine se num caso relativamente simples a vontade é de nunca mais trepar, imagine o que pode rolar na cabeça de uma mulher submetida a dupla mastectomia. E que depois deverá sofrer a reconstrução das mamas, um processo bem doloroso e complexo. Claro, os resultados podem ser muito satisfatórios mas… Lembremos, ter câncer nunca é bacana.
Porém, o bom da coisa é que eventualmente o susto passa e a vida sexual poderá e será retomada. Mais lentamente para alguns casais, mais rapidamente para outros. O mais legal disso tudo é que, nem preciso dizer como o parceiro(a) deve proceder nesses caso. Por que, quando necessário, ele ou ela saberá como agir.
Basta continuar tendo paciência e amor. E adicionar uma pitada de tempo.
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Charô está vegetariana, artista plástica, poliamorosa e blogueira. Mas continua atéia e à toa. O resto? Descobre-se.