Androginia – Da Mitologia à Vida Real

O que é androginia? Quem eram (são?) estes seres que guardam em si aspectos fisicos e psicológicos dos gêneros masculino e feminino? O Texto abaixo é uma verdadeira aula de mitologia que nos leva a entender um pouco mais os porques dessa pluralidade humana. Mais um ótimo texto do Mr. B, do site Homographix, que complementa o texto sobre a Pansexualidade. Sei que vão gostar

Androginia

Autor: Mr. B

 

“Inventemos um Imperialismo Andrógino reunindo as qualidades masculinas e femininas; um imperialismo alimentado de todas as sutilezas femininas e de todas as forças de estruração masculinas. Realizemos Apolo espiritualmente. Não uma fusão do cristianismo e do paganismo, mas uma evasão do cristianismo, uma simples e estrita transcendência do paganismo, uma reconstrução transcendental do espírito pagão” .

Fernando Pessoa

O termo “androginia” vem do grego “andros” (andro), homem, masculino e “gimnos” (gimno), mulher, feminino e foi pela primeira vez utilizado, que se tenha notícia, por Platão no texto “O Banquete”. Lá nos conta Platão, através do discurso de Aristóphanes, que o Ser Humano possuía originalmente três sexos e não dois como hoje em dia. Isso era assim, pois os deuses o criaram inspirando-se na Lua, criando os seres femininos, no Sol, criando os seres masculinos e na Terra, criando os seres andróginos. Temeroso de que o Ser Humano pudesse vir a destronar os deuses, Zeus ordenou a Hefésto e a Apolo para que descessem e cortassem os humanos na metade, para que assim eles passassem o resto da eternidade procurando suas metades perdidas e não se lembrassem de tomar o poder do universo das mãos dos deuses. Desta forma, foram criados homens e mulheres e aquelas mulheres que são oriundas de cortes de seres lunares, passam a vida a buscar a completude em outras mulheres, bem como os homens que são oriundos de cortes de seres solares, buscam completarem-se em outros homens. Os que foram um dia parte de um andrógino, buscam completarem-se no sexo oposto e, tal como a Terra, ao unirem-se conseguem criar uma nova vida.

Esta idéia de que os deuses têm medo de que um dia o Ser Humano possa lhes destronar é arquetípica e pode ser facilmente encontrada em todas as religiões. Na Bíblia, no Gênesis Yehovah teme que Adão e Eva venham a se tornarem deuses e os proíbe de comer do fruto da árvore do conhecimento do Bem e do Mal. Porém, tentados por Lúcifer, Adão e Eva acabam lançando mão do fruto proibido e seus olhos se abriram e eles viram. “eis ai que está feito, Adão como um de nós, conhecedor do Bem e do Mal”. Para ter certeza de que o Ser Humano também não lançaria mão do fruto da Árvore da Vida e adquirisse a Vida Eterna, tornando-se definitivamente um deus, Yehovah expulsou então ambos do paraíso e colocou à sua porta um querubim com uma espada flamejante para impedir o seu retorno. Da mesma maneira e compartilhando do mesmo medo, a Mitologia Suméria nos mostra os Anunnaki: estes deuses, também têm muito medo de que o Ser Humano pudesse vir a se independizar e a tornar-se livre de seu jugo.

Uma grande exceção no que diz respeito a este medo arquetípico da divindade em relação a uma possível independização humana é a postura cristã. Cristo se apresenta como o Salvador (“sóter” – soter), como o segundo Adão que vem redimir a queda da Humanidade, trazendo o caminho para a Vida Eterna, sendo ele mesmo o fruto da Árvore da Vida, transformando a existência mortal em uma existência divina. Cristo é então o redentor, aquele que apresenta um Deus superior, feito de perdão e amor e não mais de ódio, vingança e egoísmo. Cristo aceita a todos no mundo do Pai (“Abbah”), cada qual como é, sem exigências, sem regras e funda uma religião universal (“Katholike Eklesia” – Kaqolikh Eklesia) que se coloca acima das nações e dos povos, dos interesses políticos e econômicos.

Deste ponto de vista, superando-se então uma visão sexista embutida nas religiões patriarcais, entende-se a imagem de Deus (Imago Dei) como uma figura andrógina por excelência. Na tradição hebraica Deus tem um lado masculino, Yehovah e outro feminino: Sheknah. Evidentemente o lado masculino acabou sobrepujando o lado feminino, como reflexo da postura machista da própria religião judaica. Com reflexo da Imagem de Deus, os anjos são igualmente andróginos e por isso costuma-se dizer que os anjos não têm sexo. Na verdade os anjos têm os dois sexos! No Cristianismo o famoso “Deus Pai” seria originalmente “Deus Pai-Mãe”, um deus-deusa, superior a esta divisão sexista. No Budismo se há o Buddha, há também Cannon, seu lado feminino. Se há um deus do céu, há sempre uma deusa da Terra. Deus seria, portanto, andrógino. Mesmo na Biologia e na teoria da Evolução das Espécies admite-se que a origem de toda a vida provém de seres unicelulares andróginos que se reproduziam (e ainda se reproduzem) de forma assexuada.

Na Babilônia, o deus Lua Sinn era invocado como “Ó, Mãe-Útero, geradora de todas as coisas, Ó, Piedoso Pai que tomou sob seus cuidados o mundo todo”. Assim como T’ai Yuan, mulher sagrada de antigos mitos chineses, conjugava Yang (o princípio masculino) e Yin (o princípio feminino). No taoísmo, os princípios se unem para formar o Tao manifesto. No hinduísmo, Shiva e Shakti, os primeiros deuses de certas versões da cosmogênese hindu, formavam, no início, um só corpo, na manifestação chamada Ardhanarisha, o “Senhor Meio Mulher”. Entre os antigos persas, Meshia e Neshiane formavam um só indivíduo. “Ensinavam também que o homem era produto da Árvore da Vida e crescia em pares andróginos, até que estes pares foram separados devido a uma subsequente modificação da forma humana”. No Talmud e no Zohar a androginia também está explícita: O nome Adão foi compreendido como englobando macho e fêmea (Adam Kadmon). “A fêmea estava atada ao lado do macho e Deus mergulhou o macho em um profundo torpor e ele ficou estendido sobre o terreno do Templo. Então Deus separou-a dele e paramentou-a como uma noiva”. No Gênesis, aparece de forma mais implícita: “E Deus criou o homem à sua imagem, na Divina imagem Ele os criou; macho e fêmea os criou”. A mais respeitável obra judaica sobre a interpretação do Gênesis, o Midrash Rabbah, diz textualmente: “Quando o Sagrado, Abençoado seja Ele, criou o primeiro homem, Ele o criou andrógino”.

Seguindo-se o mesmo raciocínio, sabe-se que o Espírito Humano é igualmente andrógino. Todos nós temos em nós nossa porção masculina e nossa porção feminina. Carl Gustav Jung percebeu isso e denominou Ânima a porção feminina que os homens guardam no profundo de seu Inconsciente e Ânimus a porção masculina das mulheres, igualmente guardada no fundo do Inconsciente. O estudo que Jung fez sobre Alquimia revelou que esta antiga tradição já há muito compreendia a verdadeira natureza andrógina do Ser Humano e preconizava que a transmutação dos metais e a descoberta da Pedra Filosofal se fizesse necessariamente através de uma fase que se conhece como União dos Opostos (Mysterium Conjuctionis), onde o masculino se funde ao feminino, seja nos metais (o chumbo se une à prata, o estanho ao mercúrio, o ferro ao cobre), seja no Ser Humano (o Andrógino Alquímico) seja no Universo (Ouroborus).

Na “Antropogênese”, terceiro volume de “A Doutrina Secreta”, Helena Blavatsky, após várias explanações e citações de antigos textos, diz que “o ponto em que insistimos no momento é que, seja qual for a origem atribuída ao homem, a sua evolução se processou na seguinte ordem: 1º ele foi sem sexo, como o são todas as formas primitivas; 2º depois, por uma transição natural, converteu-se em um ‘hermafrodita solitário’, um ser bissexual; e 3º deu-se finalmente a separação e ele se tornou o que hoje é”. Como em toda a grande obra exposta por Blavatsky, as considerações são sempre seguidas de comparações entre as diversas filosofias, religiões e ciências, mostrando que, ainda que de forma diferente, elas sempre têm a mesma base e, portanto, chegam à mesma conclusão. “A Ciência ensina que todas as formas primitivas, embora sem sexo, ‘possuem, contudo, a faculdade de passar pelo processo de uma multiplicação assexual’”, e indaga, “por que então seria excluído o homem dessa lei da Natureza”? Rudolf Steiner também percebeu esta androginia do Espírito Humano e afirmou que para mantermos um equilíbrio entre nossas porções masculina e feminina, alternamos nosso sexo físico ao longo das encarnações.

Sendo então o Espírito Humano andrógino por natureza e em sua essência e origem e a separação dos sexos apenas uma ilusão criada pela materialidade e pela existência do corpo físico, com o processo evolutivo da Humanidade, no qual mais e mais do Espírito vai-se aos poucos conseguindo trazer para a existência, seria (e é) inevitável que uma consciência desta androginia mais cedo ou mais tarde aparecesse. Pois é exatamente isso que vem acontecendo na Humanidade. Até há alguns anos a definição de gênero era uma definição simples e dualista: homens e mulheres compunham a espécie humana. Os papéis e as posturas sociais de cada gênero eram muitíssimo claras e definidas. Com o avançar do Século XX e, mais ainda, com o início do Século XXI, uma nova visão sobre os gêneros e a sexualidade humana aflorou e veio confrontar a instituição moral vigente na sociedade. Os gêneros humanos se multiplicaram, frutos de uma nova consciência sobre a própria sexualidade e frutos da tecnologia aplicada. As formas de relacionamento assumiram facetas plurais e fluidas. Como resultado desta mudança, emergiu o conceito da “pansexualidade”, múltipla e mutável e, em última análise, tão diversa quanto diversos são os indivíduos humanos.

(Assunto que já foi comentado aqui no texto sobre Pansexualidade, do mesmo autor)

Porém, a verdadeira androginia está muito além da pansexualidade: a verdadeira androginia é muito mais espiritual do que física e consiste em descobrir dentro de cada um de nós nossas verdadeiras essências masculina e feminina de forma clara, precisa e profunda, a ponto de podermos realizarmos no em nosso Inconsciente o Casamento Sagrado (“Hierogamos” – IerogamoV), e, ao recriarmos em nós o Andrógino Primordial, (Adam Kadmon), percebendo que sempre esteve conosco a “metade perdida”, possamos nos lembrar de que somos na verdade deuses. Finalmente assim, e somente assim, se dará a tão esperada libertação dos “deuses” Anunnaki e o Ser Humano poderá ser verdadeiramente Humano, provando do fruto da Árvore da Vida, como nos oferece o Salvador.

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