E continuando a Campanha de Prevenção a AIDS ainda com enfoque na maturidade, o Ministério da Saúde esperou esta semana pré-carnavalesca para colocar no ar a versão feminina do Clube dos Enta, já comentado aqui. É o Bloco da Mulher Madura. E porque sexo não tem idade, segue abaixo o vÃdeo disponÃvel no youtube e também um texto super engraçado do jornalista Franciel Cruz, que fala dos mocinhos que tem certa paixão por mulheres maduras. É pra rir!
Diálogos Impertinentes
Franciel Cruz
De Salvador (BA)
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O indignado João Ubaldo Ribeiro pode até protestar e espalhar por toda a Bahia e uma banda de Sergipe que é culhuda, mas, como dira o menino Orson Welles, o que segue é tudo verdade.
Seguinte.
Exatamente às 10h34 minutos da madrugada desta última sexta-feira, este que vos aborrece foi para a labuta, em Salvador, no glorioso Sussuarana R-2 praticamente vazio. Aos desinformados sobre o sistema de transporte de Soterópolis, asseguro: conseguir pegar o referido ônibus sem lotação máxima é proeza que nem a ciência mais avançada e moderna conseguirá explicar. Um verdadeiro milagre. Pois bem. Além deste sortudo locutor, do motorista e do cobrador, havia apenas mais duas ou três almas penadas, escornadas e espalhadas (valei-me, minha santa aliteração) pelo buzu. Parecia até quinta-feira de cinzas.
Mas, o motivo da minha besta alegria, veio assim que me recostei na confortável poltrona da frente e escutei o seguinte diálogo. De certa forma, escutei e participei.
Com aquele tradicional jeito baiano de quem lhe conhece desde pequeno, o motorista foi logo largando esta.
– Bacana (bacana sou eu), tá vendo este cobrador aÃ? (Lógico que eu tava vendo. ImpossÃvel não perceber aquela figura, digamos, excêntrica e com um bigode à la Sammy Davis Jr.).
Lacônico, como convém a um passageiro educado, digo.
– Prossiga, excelência.
– Você não dá nada por ele, mas é um miséravo. Bota pra fuder. Come tudo, não libera nada, principalmente as velhinhas.
Nosso Sammy Davis, que ouvia tudo sossegadamente, interrompe.
– Não é bem assim, não, papá. Digamos que tenho um certo apreço pelas idosas.
O motô, então, retorna à tribuna.
– Rapaz, este miserávo não libera ninguém. Outro dia mesmo comeu uma senhora de 70 anos, mãe de um colega nosso que trabalha na Vimbemza. (Eu sei, rebanho de sacanas, que a Vimbemza não existe mais e que a grafia correta é Vibemsa. Escrevi assim para tirar de tempo e não entregar nosso herói à ira santa do colega de profissão, que não ia ficar nada satisfeito ao saber que a sua (lá dele) genitora estava indo à s vias de fato com o referido).
Mas, Sammy Davis interrompe novamente.
– PeraÃ, pai véi. Ela só tinha 63 anos.
A partir de então, pego afeição pelo dom ruan que comanda a catraca e saio em sua defesa.
– Porra, motô, você tá de sacanagem. A moça só tinha 63 anos e você dizendo que era 70.
O condutor da marinete, então, se reta e parte para o ataque covardemente.
– Vá, sacana, defendendo este desinfeliz que uma hora desta é sua mãe que cai no plantão dele. E tem mais. Ele ainda costuma estorquir as coitadas.
Ao ouvir tal heresia, nosso herói estrila. E, em seguida, dá uma verdadeira aula sobre os fragmentos das relações amorosas, coisa de deixar Barthes no chinelo. Ouçam.
– Motô, aà é que você se engana. Outro dia mesmo uma amiga (é assim que ele trata as vÃtimas) queria me dar seu voyage seminovo e eu recusei. E disse para ela: “Que é isso, mãe. Tudo que faço é por amor”.
Sem deixar brecha para o contrataque, o galante cobrador prosseguiu.
– É óbvio que não foi por amor. Não apenas por isso. É que mulher é um bicho sacana da porra, véi. É capaz de ela me ver com outra, o que é meu direito, e querer pegar o carro de volta só por isso. Como sei que ela não vai passar a máquina para o meu nome, então recuso tudo para não ficar amarrado. Eu quero apenas uma casinha, que não tenho dinheiro para pagar motel, uma cervejinha gelada e um descanso. É lógico que, se ela se agradar do papai aqui e quiser dá uma ponta e eu estiver no momento de aperto, não vou recusar. Afinal, tenho muito defeitos, mas não sou orgulhoso.
ParaÃ, motô, ó meu ponto, véi.
Já fui Banda Aiyê.
Franciel Cruz é jornalista, editor do Blog Ingresia e torcedor do Vitória.