Conheci o site italiano Violet Views, em ocasião da morte de Betty Page . Tudo a partir de um comentário de sua criadora, no post referente. Curiosos que somos (a personalidade múltipla não é esquizofrenia, risos, é que eu e o Administrador Secreto checamos praticamente todos os links aqui colocados) descobrimos o site. Aliás, foi o Administrador Secreto que contatou a dona do site,  e conversamos sobre a possibilidade da entrevista que ela, gentilmente, aceitou.
Durante a pesquisa, li alguns de seus textos, vi todos os seus ensaios fotográficos, que de tão conceituais chegam algumas vezes a causar certo incômodo, mas nunca a indiferença. A entrevista que segue apresenta uma mulher/transsexual que despe sua alma aos nossos olhos. Que explora todas as facetas do discurso sobre a sexualidade e que fala em plenitude dos seus pontos de vista de uma maneira apaixonante. Creio que vão gostar.
Fale um pouco da criadora (você) e da personagem (Violet), ela é o seu lado B?
Em realidade, Violet  não é uma personagem, mas muito mais que  simplesmente o tÃtulo do site, nascido de uma curiosa anedota. Em todos os foros nos quais participo, me chamo dysphoria_noctis (misto de latino e grego: quer dizer “desassossego da noiteâ€) ou noxdysphorika (“noite desassossegadaâ€). Dado que não me parecia oportuno nem atrativo chamar assim o site, em julho do ano passado, quando o criei com uma amiga, estive então ante a dúvida sobre o nome a dar-o. A intuição decisiva me foi dada pelo site de uma queridisima amiga ilustradora de Roma, Scarlet Gothica, com a qual Violet, como pode ver-se, é muito similar no nome 🙂
Escritora, modelo, performer e dona de um site que instiga a reflexão da sensualidade. Seria Violet uma linda provocadora? Fale mais do assunto.
Sim, também. Violet se propõe explorar todas as facetas nas quais o erotismo e a sensualidade podem exprimir-se, em particular as facetas estatÃsticamente minoritárias e incômodas para uma certa tipologia de normativismo, que eu chamo “heterossexual-coital absolutoâ€, desafortunadamente ainda muito imperante na sociedade italiana.
Violet deseja ser um frugal oásis de serenidade e uma pequena luz de vela que esclarece a vereda de todos aqueles (eu em primeiro lugar) que têm curiosidade artÃstica, cultural, intelectual e visual pelo erotismo.
Li um conto, “Due donne a Trondheim”, e uma poesia, “Assurta nel Lesbico Eden”, da sua seção de textos. E percebi que os dois (pode ser apenas uma coincidência), tem muito forte em sua essência o tema lésbico/gótico/fetichista. Fale um pouco disso, é simplesmente sensação ou este é realmente o seu estilo?
Você está falando de aspectos muitos importantes da minha personalidade e do meu sentido artÃstico. Desde a mudança para Bolonia (no verão de 2006) de uma pequena aldeia da provÃncia, posso viver (e compartilhar) plenamente esses tres elementos, que já estavam presentes no meu mundo interior desde muitos anos (desde os finais dos anos 90), sentÃ-los meus ao nivel visual e emotivo e comparar-me com outras pessoas que vivem essas temáticas (singularmente o simultâneamente).
Para resumir, o feito é: desde que há quase tres anos essas temáticas podem desenvolver-se de maneira totalmente livre na minha vida,  isso tem provocado tanto uma forte maturação da minha personalidade, como uma considerável estimulação para animar e diferenciar os meus interesses artÃsticos.
Pela força dos seus escritos e a sensualidade neles, é evidente o seu fascÃnio pelo feminino, mais especificamente pelo feminino homossexual, a lésbica. Se estiver falando uma bobagem, me corrija, mas a dualidade da transsexualidade faz de você uma mulher bissexual?
Não. Esse caso implica dois aspectos da personalidade humana, a identidade de gênero e a orientação sexual. A identidade de gênero responde as perguntas “Quem sou eu? Quem sinto ser?â€, enquanto a orientação sexual responde as perguntas “Com quem gosto ter relações sexuais? Quem me atrai?â€
Então, hoje sou uma transsexual (identidade de gênero) lésbica (orientação sexual). Uma vez operada, serei uma mulher lésbica. Mulher sem útero, ovários, menstruações e com cromossomo XY, mas sempre mulher, como as demais 🙂
Falo quase exclusivamente do erotismo feminino (com excursões no erotismo transsexual) também porque sempre fiquei fascinada pelas temâticas da viagem e da descoberta, e dado que estou viajando (descobrindo-o cada vez mais) para um corpo de mulher…
Em seus ensaios fotográficos, é possÃvel ver várias faces de Violet Erótica. Em alguns, a personagem se apresenta doce e até frágil. Em outros, com a força e o poder de uma Dominatrix. No entanto, todas as imagens são fortes, mesmo as mais simples. E sempre passam uma certa inquietude. Tais ensaios conceituais foram idéia sua? Quem são os fotógrafos responsáveis e/ou produtores?
Depende. Os primeiros três ensaios foram realizados a partir das minhas idéias, com a ajuda de três pessoas amigas diferentes (somente o homem cum o qual fiz “Il pomo di Eva†trabalha no mundo da fotografia). Nesses primeiros ensaios procurei valorizar algumas temáticas pelas quais tenho peculiar afeição.
Sejam: dominação/submissão, fetichismo, ambigüidade de gênero (procurando exprimir um erotismo transsexual o mais possÃvel distante dos estereótipos), desafio entre animado e inanimado (colocando-se sempre na esfera erotica), sensualidade em harmonia com a natureza ,  e,  enfim, dimensão espiritual do erotismo, deconstruindo os sÃmbolos religiosos clássicos que valem para todos e reconstruindo-os numa esfera pessoal, diferindo os seus significados.
Nesses ensaios pode notar-se também a influência que tem sobre mim o teatro (minha paixão adolescente), dado que muitas fotografÃas parecem partes de uma cena de teatro. Creio que seja tudo isso, além da ideia de dinamismo que procuro dar em cada clique, que faça perceber como “imagens fortes†as minhas fotografias.
Os últimos dois ensaios são idealizados, realizados e modificados com Photoshop, por uma amiga fotógrafa, profissional há 20 anos.
Para finalizar, comente um pouco sobre os seus projetos atuais e/ou futuros. O site é algum projeto para livro? As fotos fazem parte de algum catálogo ou exposição?
Antes tudo estou muito agradecida pela entrevista. Foi um imenso prazer.
Todas as minhas produções artÃsticas são independentes, não condicionadas pelos editores ou ligadas umas com as outras.
O meu sonho é fazer de Violet Erotica o meu trabalho, unindo assim paixão e profissão. A coisa mais imediata que farei, com um amigo fotógrafo profissional, será fazer de Violet Erotica um site independente. Exportando-o do portal altervista.org, embelezando-o e organizando de maneira mais correta e funcional as seções.
Com ele tenho também um projeto fotográfico pendente, muito cuidado e minucioso, que exigirá tempo e paciência. Também com outros fotográfos deveria fazer fotos, não sei quando. Não ser modelo profissional tem o defeito de nunca ter certeza sobre as disponibilidades de tempo.
O meu maior desejo é  “ampliar†Violet Erotica a outras artes, outros artistas (já tenho um espaço pessoal, o meu blog, não falta outro) e poder um dia dar a ele uma conotação internacional (hoje fica ligado exclusivamente a uma cultura europeia e a um estilo de vida italiano).
Enfim, a minha ideia sobre o caminho artÃstico a seguir é dar precedência as fotografias, e que elas puxem os escritos. Também não sei dizer se na Italia é mais dificil ser modelo transsexual ou escritora.