“Não sabia que eu era uma atriz. No começo eu fui com muita vergonha e depois comecei a ver que saiu de dentro de mim. Aprendi muito”, resume Sandra Cristina Tetente, 39 anos, portadora do HIV há 11 anos e uma das agentes de prevenção do Programa Municipal DST/Aids da cidade de São Paulo convidada para o musical “Good Morning, São Paulo – Dhiversidade.”
O espetáculo, organizado com 20 dos cerca de 140 agentes de prevenção do municÃpio, terá uma única apresentação, exclusiva para convidados, nesta quinta-feira (29), à s 20h, no Teatro Dias Gomes. O show faz parte das ações que a prefeitura organizou para chamar a atenção para o Dia Mundial de Combate à Aids. Assim como Sandra, alguns dos agentes que participam do elenco são portadores do HIV.
Aproveitei a notÃcia só pra falar um pouquinho do tema. Não sou nenhuma ativista na luta contra a AIDS, já até trepei sem camisinha (pouquÃssimas vezes e me arrependo disso), mas fechar os olhos para o fato não é só ignorância, é burrice.
Meu primeiro emprego na vida foi como recepcionista em feiras e eventos, para uma empresa de sonorização e vÃdeo. Sabe aqueles congressos médicos, cheios de palestras e cursos? Então… O ano era 1989, o Cazuza estava morrendo e ninguém sabia exatamente do que. A AIDS ainda era tratada como o câncer gay, havia um tremendo estigma em cima de quem adoecia e, naquele momento, o melhor que me aconteceu na vida foi ter trabalhado na sala de um médico, Dr. Mauro Schechter, que falava de prevenção em uma época que ninguém nem ousava falar do assunto.
Lembro como se fosse hoje, de uma pergunta que rolou na platéia, quando alguém levantou o dedo e disse: “Como devo tratar o paciente aidético em meu consultório?â€. Era um congresso de odontologia. E então o palestrante respondeu: “Como trata qualquer outro paciente, afinal, nenhum portador de HIV traz um letreiro na testa†(percebam a sutileza com que ele mudou a maneira de tratar o paciente do pejorativo para o adequado). E então começou a falar de procedimentos para a prevenção, e não segregação, que hoje são normas de saúde mundiais.
Não sei bem explicar, mas aquela frase mudou minha vida, pois pela primeira vez eu vi que a AIDS era uma doença traiçoeira, que não havia grupo de risco, mas sim comportamento de risco. E desde então, salvo raros momentos que já cometi meus deslizes (e só me acalmei muito tempo depois, após exames que faço periodicamente), eu faço uso de preservativos em todas as minhas relações sexuais. Já acostumei, acho até estranho quando não uso. Sem contar que pra quem é criativo (como já mostrou o meu amigo do Pequenos Delitos) o preservativo deixa de ser um acessório estraga prazer, para ser exatamente o contrário.