Peço licença para usar neste post o tÃtulo de um filme (Nunca te vi, sempre te amei) muito lindo que assisti na década de oitenta, no que eu pensava ser o auge da minha história. O tempo me mostrou que nunca sabemos qual é este auge até que aconteça. Por isso só nos resta viver. É um texto grande repleto de verdade, lirismo e, é claro, erotismo. Se não tiver paciência, pode deixar de ler agora. Este não é um post qualquer.
O conheci tinha 10 anos, minha vida familiar estava de pernas para o ar depois da morte do meu pai, minha mãe apresentava sintomas de sÃndrome do pânico em uma época que ninguém sequer sabia o que era isso. E ela, uma mulher muito comunicativa, via-se numa situação estranha, nova, aos 36 anos tornava-se chefe de famÃlia. FamÃlia em que antes foi apenas esposa. Tudo era novo para a minha mãe, encantador e assustador. Onde ele entra nisso? Bem, neste perÃodo em que minha mãe pouco saÃa de casa, em tempos sem internet ela se socializava ligando para as rádios AM. Acreditem, por telefone minha mãe conhecia praticamente todos os locutores e locutoras de rádio, de tanto ligar e pedir músicas. Ela, que não saÃa de casa, sentia-se rodeada por um monte de amigos que não conhecia, graças a uma simples menção, um simples alô pra ela nas ondas do rádio. Qualquer semelhança com alguns que hoje vivem isso com a internet não é mera coincidência. Eventualmente ganhava um LP, um kit qualquer coisa e sofria como louca pra ir buscar, mas… Conseguia, e aos poucos, ia conhecendo gente, ampliando seu mundinho e finalmente saindo daquele estado terrÃvel das suas crises de pânico. Ele era um dos locutores amigos dela.
Tinha apenas 19 anos, estudava jornalismo e eventualmente minha mãe me colocava ao telefone para dar um oizinho, pedir uma música… Era assim com todos os locutores, mas com ele aconteceu algo diferente. Dele eu gostava. Com ele eu sempre fazia questão. À medida que ia crescendo, ficava claro que não era mais apenas a minha mãe amiga dele, mas eu também. Admirava-o, sempre muito trabalhador e estudioso. Quando eu estava com uns 15 anos, vendo que aqui no RJ não tinha grandes chances, ele aceitou uma proposta de emprego em outro estado. Antes de ir ele pediu nosso endereço, e um dia, do nada, chegou a carta dele em papel timbrado da nova rádio. Carta que eu respondi, que tive resposta, que respondi novamente… Por anos a fio nos correspondemos, nos telefonávamos. Foi por causa dele que me interessei por internet e e-mail, há uns dez anos atrás. Muito mais rápido e imediato que o correio. Ele ouviu minhas lamúrias sentimentais, minhas dúvidas profissionais, eu escutava sobre seus problemas no trabalho, na vida, da esposa, das gracinhas do filho, quando se separou, casou novamente… Amigos! Éramos amigos. No entanto em minha cabeça adolescente, foi impossÃvel não comparar minha história com a do filme. Nunca te vi, sempre te amei, mesmo que platonicamente.
E numa tarde de verão, entre um casamento e outro dele, quando ele finalmente financiava seu primeiro apartamento, não lembro bem se foi ele ou eu quem ligou. Eu já devia ter quase 20 anos, me tranquei no quarto como sempre fazia e ali me preparei para passar no mÃnimo uma hora ao telefone, rindo e jogando conversa fora, não fazÃamos isso sempre, os papos cabeça eram por carta, mas de vez em quando papeávamos ao telefone. Não sei exatamente se ele estava especialmente carente, ou se eu estava com a libido um pouco mais à flor da pele, naquele dia, finalmente, abrimos a nossa caixa de pandora. E ele, que sempre tentava manter nossa amizade apenas nisso, lançou-se a uma experiência erótica até então desconhecida pra mim. Pela primeira vez me senti melar em saber que do outro lado da linha a muitos km de distância de mim, um conhecido desconhecido estava excitado e me excitando. Pela primeira vez me masturbei imaginando-o imaginar-me e pude do outro lado ouvir seus gemidos de gozo e na minha mente visualizar a cena e extasiar-me com ela.
Dali em diante nada foi igual. SeguÃamos nossas vidas, sempre amigos e cúmplices, mas eventuais amantes em potencial. Entrei pra faculdade, saà dela, comecei outra e nós sempre amigos. Eu tive uma paixão, duas, três, ele casou outra vez, teve mais filhos, e nós ainda desconhecidos. Até que um dia, durante um evento aberto que eu participava, em plena Estação do Metrô, num dia tão quente que até o elástico da calcinha me incomodava, no meio da multidão eu vi aquele rosto tão conhecido e ao mesmo tempo desconhecido. Ao longo dos 19 anos, havÃamos trocado muitas fotos, mas juro que pensei que meus olhos estivessem me pregando uma peça. Ele havia comentado que possivelmente viria ao RJ, mas tantas outras vezes ele havia prometido a mesma coisa, eu não levei fé. Curiosa, com uma multidão entre nós, fui pedindo licença, enquanto percebia-o a olhar em volta, como se procurasse alguém, não podia perdê-lo de vista. E quando enfim cheguei, parei diante dele e sorri chorando de alegria, era ele, que também sorria. Não dissemos nada, apenas nos abraçamos, forte, um novo, mas tão conhecido abraço. Por um instante, não havia ninguém à nossa volta. Me senti como num filme, que ele param a imagem, desaparecem com as pessoas, e ficamos apenas eu e ele. Ainda sem dizer nada ele pegou meu rosto, acariciou-o e me beijou, terno e longamente.
Ok, não foi tão obra do destino aquele encontro, ele havia ligado para a minha casa e a tagarela da minha mãe disse que eu estaria no evento. Evento que depois daquele beijo, não fazia mais a menor questão de assistir. Ainda meio tontos, acho que juntos dissemos que deverÃamos sair dali. E saÃmos. Ele estava de carro, entramos nele e começamos a conversar sem parar, meio sem rumo pelas ruas do RJ. Pegando engarrafamento, tendo ao fundo a belÃssima paisagem da Lagoa Rodrigo de Freitas. Olhei para aquele rosto tão querido, a silueta dele recortada na bela paisagem de fim de tarde. Não fiz uma foto, mas guardo até hoje aquela imagem. Com a mão no volante e outra em minha coxa ele dirigia e conversava, eventualmente lançava um olhar safado para o meu decote até que finalmente disse:
– B., você não sabe quantas vezes ao longo de todos estes anos eu te imaginei assim, diante de mim. Cada foto que você me enviou, ficou gasta, de tanto que te olhei, e agora te vejo aqui, linda, tão pertinho de mim… De perto seis seios são ainda mais lindos sabia?!
– Mas você nem viu nada…
E dizendo isso eu fui abrindo a blusa, sorrindo sapeca e olhando-o nos olhos. Nem preciso dizer que quase provoquei um acidente, né?! Quando abri a blusa inteira e coloquei meus seios completamente à mostra naquele trânsito caótico. Ele então sorriu nervoso.
– Meniiiina… Para com isso, senão tenho que te fazer uma proposta indecente. – Fechei a blusa e me endireitei no banco, feito menina sapeca.
Pouco depois estávamos em um quarto de motel. E o que pode parecer até meio animal, puro instinto, foi muito mais que isso. Em quase vinte anos eu fui de menina a mulher, de filha da amiga a mulher desejada. E ele foi de mito a homem. Nos despimos lentamente, corpos desconhecidos, mas curiosamente Ãntimos. Tomamos banho juntos, o sabonete, as mãos a espuma, tudo era uma carÃcia para os nossos corpos, cada vez mais colados e desejosos. Nos secamos, um ao outro, nos tocávamos com cuidado e carinho, ainda que eu quase explodisse de vontade, melasse a cada toque, e observasse nele as reações explÃcitas. Adiávamos o ato como uma doce tortura. Por tanto tempo sonhamos, fantasiamos, imaginamos… Estávamos prestes a ter nossa primeira, que poderia ser nossa última vez. Nossa realidade não podia ser esquecida.
Ele me deitou na cama com carinho, terminando de me secar com a toalha, para imediatamente me dar um novo banho, dessa vez com sua boca e lÃngua, com ela ele me cobriu, invadiu e explorou cada canto. Fiquei quase em um transe, era uma sensação estranha, como se eu estivesse, mas não estivesse ali, sentia tudo, mas era como se também observasse de fora a cena. Foi então a minha vez de desvendá-lo, beijá-lo da cabeça aos pés, prová-lo. Sentir o gosto que tantas vezes imaginei, me deliciar, sorver, sentir com as mãos aquele corpo amado e desejado. Tudo era muito lento e calmo. Com a boca coloquei a camisinha, ele riu da destreza. Sentei nele, devagar, era curioso, mas eu estava tensa, extremamente apertada, como se a minha virgindade se tivesse refeito. Fechei os olhos e fui descendo devagar, apenas ouvindo nossas respirações ofegantes, sentindo as mãos dele em me corpo, até enfim senti-lo completo em mim e relaxada enfim, entrega-me aos seus lábios, que procuravam meus seios, pescoço e lábios. De leve eu rebolava sobre ele, até eu enfim me sentir mais leve, mais dele e me entregar totalmente. De todas as maneiras nos tocamos, nos comemos, nos demos um para o outro. E quando enfim nós gozamos uma única e intensa vez, percebemos que demoramos horas naquela maratona. Estávamos exaustos.
Por um tempo ficamos quietinhos, sem falar nada, nos braços um do outro. E aos poucos nos desvencilhamos dos nossos corpos, curiosamente, e na cama nos afastamos. Deitamos na imensa cama, afastados, unidos apenas pelas nossas mãos. Corpos distantes, mãos amigas. Adormecemos.
Ele voltou para sua casa no dia seguinte e para a sua vida também. Às vezes penso que foi sonho, mas eventualmente lembramos que não foi. Não trocamos mais cartas, agora são mensagens de e-mail. Ainda somos amigos, ainda somos cúmplices e nos amamos. Nunca nos esquecemos. Portanto, apesar de ter emprestado para este post o tÃtulo do filme, quase trinta anos depois de, ainda menina, tê-lo conhecido eu afirmo: “Uma vez te vi, sempre te ameiâ€. Não sei se aquele nosso encontro foi o primeiro e último, mas certamente foi inesquecÃvel.