Pink Floyd
“And I am not frightened of dying,
any time will do, I don’t mind.
Why should I be frightened of dying?
There’s no reason for it,
you’ve gotta go sometime.”
“I never said I was frightened of dying.”“If you can hear this whispering you are dying…”
Enquanto caminhava lembrei de uma história que vivi aos vinte e poucos anos. Já até parei para escrever sobre O. aqui, mas sempre vinha algo mais interessante e excitante, nunca terminei. Não que o que vivemos não tenha sido excitante, mas é que o que vivemos foi extremamente terno também. Estou especialmente melancólica estes dias… Veio a história completa. Começo, meio e fim dessa deliciosa paixão. De um tempo em que apesar de complicado, como sempre foi pra mim, mesmo assim eu me permitia coisas mais simples, menos elaboradas e era feliz, muito feliz com isso.
Eu e O. éramos da mesma idade, morávamos no mesmo bairro, os mesmos amigos, a única grande diferença entre nós era a vida, como levávamos. Eu trabalhava de dia e estava na faculdade à noite, na esperança de algo melhor pra mim, enquanto ele tinha que ralar em dois empregos para pagar a pensão da filha, não tinha ambições maiores que manter-se. Tinha um chevete velho que vivia dando problemas, a mãe da filha dele enchia a paciência de vez em quando, a gente não tinha dinheiro pra quase nada e ainda assim era super feliz. Não foram mais que oito meses, mas foram deliciosos meses.
Lembro de muitas histórias nossas, mas uma em especial me excita até hoje recordar. Fomos dormir na casa de um casal de amigos, era uma das poucas oportunidades de passar uma noite inteira juntos. Era inverno, ficávamos até altas horas entre queijos, vinhos e altas conversas. Esse casal amigo era cúmplice, entendia bem o que era não ter onde namorar. De vez em quando eu penso que é por isso que casais muito jovens de classes mais baixas casam-se. Costumo brincar que é para que o homem torne-se finalmente CHEFE, de famÃlia, enquanto a mulher torna-se DONA, de casa. No entanto, brincadiras à parte, creio que a sexualidade está embutida nisso sim. Qualquer kitinete vira um palácio de contos de fadas e vivem felizes para sempre até as primeiras dÃvidas, mas o que tem O. e eu com isso? Nada, nunca casamos… Não porque ele não quisesse, mas eu… Bem, casar era um pouco demais. Sempre foi.
Nesta noite fria em especial, depois que nossos amigos foram dormir, abrimos um monte de edredons sobre o tapete da sala. Tomamos mais um copo de vinho e ficamos ouvindo Pink Floyd bem baixinho, The Dark Side of The Moon, entre muitos beijos e abraços. Embaixo de um cobertor que aquecia tanto, mas tanto, que em determinado momento foi desnecessário, tamanho o calor dos nossos corpos. O. tinha mãos ásperas, mão de trabalhador, estudou pouco, mas era um homem extremamente sensÃvel, me escrevia poesias, até hoje tenho nossas cartas guardadas. Quando eu sentia aquelas mãos em meu corpo eu incendiava. Tinha gostos sexuais simples, é ele o namorado que nunca quis me comer o cu, apesar de eu muitas vezes pedir. Só que tudo era tão delicioso e simples em nossa sexualidade que era pleno. Me levava ao gozo de todas as maneiras, boca, dedos, penetração… Ops! Penetração? Não nessa noite fria, esquecemos o preservativo, e eu sempre fui neurótica com isso. Era inÃcio da década de noventa, meus heróis não tinham morrido de overdose, mas de AIDS. Sem contar uma possÃvel gravidez. E eu pensei que nossa noite tinha terminado.
O. então me beijou a boca longamente, sem dizer nada, apenas rindo da minha neurose por causa da falta do preservativo. Estávamos completamente nus, recostados nos almofadões da sala. Foi quando na vitrola (sim, ainda não era CD) começou a tocar The Great Gig In The Sky, e envolvidos pela música começamos a nos masturbar simultaneamente entre beijos e carÃcias. Os dedos dele eram ágeis e suaves, parecia eu mesma a me tocar, mas era ele. Enquanto eu o masturbava com a mão leve, movimento rápido e constante, ele gostava assim. E à medida que a música crescia o nosso tesão também. Não era necessariamente a nossa intenção, mas chegamos ao orgasmo quase juntos, nas mãos um do outro. Não éramos dois, mas um, só um. E enquanto a música acalmava nossos corpos e respiração também voltavam ao normal. Colamos então nossos corpos em um abraço, e nos fundimos novamente em um só, adormecendo, entregues. Foi, talvez, uma das melhores noites da minha vida.
Recentemente reencontrei O. aqui na minha rua, ele namora a filha de uma vizinha, menina linda, vinte e poucos anos. Ele continua bem, não engordou, não tem mais aquele chevete horrÃvel, mas um carro bom que eu não sei a marca, nunca sei, sou desligada demais pra isso. Soube que se associou ao irmão em uma oficina de lanternagem de automóveis. Vive bem. As mãos ainda devem ser ásperas, não sei se ainda escreve poesias, mas nessa noite fria e só… É impossÃvel não lembrar de The Great Gig in The Sky.