B – Bondage, práticas de amarrações.
D – Disciplina (ou Dominação), práticas disciplinares.
S – Sadismo, ter prazer impingindo dor fÃsica ou moral em outro.
M – Masoquismo, ter prazer em ser submetido a práticas punitivas, fÃsicas ou morais.Tudo isso aliado a uma outra sigla denominada SSC (São (?!) – Seguro – Consensual) são a nova cara de práticas pra lá de velhas que povoam a fantasia de muitos pervertidos de plantão.
Quando eu era pequena a sigla era S&M, escrita assim mesmo, com este “&†bonitinho. Não lembro a primeira vez que li, mas certamente achei meio doido saber que existem sádicos e masoquistas. Acho que todo mundo sabe, mas não custa lembrar que a denominação desses dois tipos antagônicos que se completam, vem de dois escritores bem doidinhos que ousaram colocar no papel suas fantasias mais doidas ainda. O Marques de Sade e Leopold Von Sacher Masoch. No entanto, não pretendo me deter aos pervertidos senhores, mas sim a esta pervertida senhorita B.
A influencia do cinema em mim
Quando era pequena, é claro que não vi Laranja Mecânica do Stanley Kubrick no cinema, tenho apenas 36 anos, assisti muitos anos mais tarde, mas já na época ouvi atenta minha mãe comentando com riqueza de detalhes as cenas das venturas e desventuras de Alex. Um jovem sádico que graças a um programa do governo passa por uma verdadeira reprogramação disciplinar tão sádica quanto ele e o transforma no ser mais masoquista do planeta a ponto de submeter-se a tudo. Numa alegoria meio moralista de lei do retorno, mas culminando com outra alegoria bem ao estilo da fábula da rã e o escorpião de Esopo, de que as pessoas são o que são, faz parte da sua natureza, mesmo um sádico louco.
Já no final dos anos 80 assisti a 9 ½ semanas de amor, do Adrian Lyne, filminho bem ruim por sinal, que foi onde eu pela primeira vez vi cenas de Dominação masculina. O que é aquele yuppie vivido pelo Mickey Rourke senão um Sádico Dominador? E Kim Bassinger, uma mulher poderosÃssima que por grande carência se mete naquele relacionamento de submissão desmedida? A cena onde ele cuida dela doente, numa entrega completa e dependência é uma alegoria tÃpica do jogo D/s (Dominação e submissão). Naquele filme, pela primeira vez eu vi a Dominação e a submissão de uma forma consensual. Tanto que no momento que vê que aquilo está fazendo mal pra ela, sai fora.
“O submisso tem muitos deveres ao obedecer a seu Dominador, mas apenas um único direito. Deixar de sê-lo, se assim desejar.â€
(Palavras de M., meu masoquista preferido)
No entanto, o filme que me deu um baque, e isso porque mexeu comigo de uma maneira que eu nunca imaginei, foi Lua de Fel, do Roman Polanski. Conta a história de um casal que vive seu relacionamento emocional/sexual até as últimas conseqüências, enveredando pelos mais loucos fetiches, criando uma dependência absurda entre eles até o esgotamento total da relação. O final é trágico. Este filme, ao mesmo tempo em que me dava medo, me deixou instigada a entender mais sobre o porquê daquele casal ter chegado aquele ponto. Quando eu pensava em um relacionamento, imaginava: “Não quero nunca me meter em uma relação como aquelaâ€, e confesso, até hoje não me meti, mas aquilo ainda me toca.
O BDSM em minha vida
Tem pouco tempo, menos de 4 anos que me envolvi no BDSM, mas no fundo sempre fui. Para mim, o BDSeMer é alguém que tem um grande vazio em sua vida e busca na fantasia da Dominação e submissão uma maneira de canalizar muitas de suas frustrações ali. Com o SSC legitimam-se práticas que para muitos são inconcebÃveis, como a tortura e Dominação psicológica, por exemplo. Consensualmente o BDSeMer vive uma historinha para muitos traumática, mas que para ele é uma terapia quase catártica. Existem papéis que são representados na cena (Dominadores, submissos) sem que na vida real estes sejam os papéis que exercem no dia a dia. O que percebo, é que pelo menos para mim, o submisso tem que ser alguém inteligente, interessante, com cargos profissionalmente de destaque e liderança, ou pelo menos de grande valor social. Já tive submissos professores, militares, empresários, executivos… Uma coisa primordial para mim, é admirar o homem na vida para desejar submetê-lo na cama. Tenho plena consciência, de que pelo menos no meu caso, o meu prazer com a Dominação aconteça porque eu no meu dia a dia não Domino nada. Sou uma profissional de criação, que vivo completamente sem regras rÃgidas, optei por um estilo de vida mais simplificado porque prezo demais a minha liberdade, mas… Não me sinto Dona nem de mim. A relação de Dominação e submissão é para mim, uma grande oportunidade de compensar sexualmente o que não pratico em meu dia a dia.
Sou uma mulher extremamente doce, delicada e apesar da minha seriedade, dos meus quase 1.80m sem salto eu não sou uma figura de aparência dura. Sou alegre, sorridente, tenho prazer em dar prazer. Estou longe de ser o estereótipo da Dominadora. Eu sorrio em minhas sessões, brinco, sou educada e nada rÃspida, a não ser quando o momento exige esta atitude. Me sinto extremamente á vontade no papel da Dominante. Tenho umas fantasias incomuns, como o controle, a castidade, submeter o outro a dores, expandir limites por mim, mas… No fundo o BDSM é para mim uma grande terapia, onde posso brincar de Dominar enquanto o outro brinca de submeter-se. No entanto, repito, esta é a minha visão do BDSM, minha maneira de vivê-lo. Alguns levam muito a sério, o tem quase como um estilo de vida, sonham com o 24/7 (24 horas por dia 7 dias na semana) e tem até os que conseguem. Acham a sua medida, a sua maneira de viver. Exatamente porque a regra é não ter regra.
Dominadores, switchers ou submissos?
No BDSM, meu primeiro contato real foi com um submisso e podólatra. Ele era casado e apesar da esposa aceitar e entender essa coisa da podolatria e submissão na cama, ela não curtia. Não tinha o menor tesão com a coisa, mas como o amava, fazia para satisfazê-lo. Taà uma coisa que eu dificilmente faria por alguém, fazer sexualmente algo que não me agrada só por amor. O que sei é que quando ele me conheceu e viu que eu senti prazer não apenas com a adoração aos meus pés, como tive iniciativas bastante insólitas durante a relação que o deixaram de queixo caÃdo e literalmente aos meus pés, ele viu, pela primeira vez em sua vida, uma mulher ter prazer com o seu prazer. Eu achei incomum, mas amei.
“Na vida, eu nunca tive problemas em me aceitar, sempre entendi bem o que eu era, o que eu gostava e nunca me questionei com isso. Só questionava como eu conseguiria me integrar em um mundo que certamente jamais me aceitaria.â€
(Palavras do F.)
Comecei a querer saber mais e mais, me informar e ficar cada vez mais curiosa. Eu não me sentia submissa, tampouco Dominadora, mas aquilo tudo me encantava. Foi quando conheci um switcher. Aliás, esta foi uma conclusão que eu cheguei, pois ele sequer apercebia-se disso. Simplesmente era. O switcher no BDSM é como se fosse um bissexual entre heterossexuais. Ele curte hora Dominar e hora ser Dominado, dependendo do parceiro ou da situação. Este foi o primeiro homem que ousou dar um tapa em minha face e tudo o que conseguiu foi provocar a minha raiva e não o meu tesão. Por outro lado, quando eu fiz o mesmo com ele, ele gostou e muito. No fundo o que aconteceu entre eu e ele, poderia ser chamado de wild sex, já até comentei sobre isso aqui. Não deu certo nosso relacionamento, mas foi gostoso, não posso negar.
Foi com um namorado Dominador, alguém que muito amei que passei a conhecer um lado da Dominação que eu desconhecia. Algo parecido com o filme 9 ½ semanas de amor, onde dizer não é impossÃvel, pelo simples fato que o prazer de dar prazer torna-se maior que nós. Com ele, mesmo sem admitir-me sua submissa, eu experimentei ser amarrada, exibida, fotografada, ser levemente espancada, sodomizada (ele era o namorado doido pelo meu cu) e mais tantas outras coisas. Eu não fui apenas apaixonada, eu o amei, fui fiel até ao pensamento porque amava ser exclusiva dele. Só que talvez pelo fato de eu jamais ter visto a nossa relação como D/s, quando descobri a existência de outras me ressenti e acabamos. E mesmo amando eu não admiti a omissão. Em uma relação, tudo é permitido desde que tenha sido acordado, em nosso acordo não havia espaço para outras pessoas e ele sabia disso, por isso omitiu. Sofri, mas não tenho com negar que com ele aprendi a maior lição de Dominação e submissão.
“O submisso é uma jóia rara, que deve ser à s vezes guardada, à s vezes exibida, mas sempre cuidada. Dominar não é impor, Dominar é conduzir. O verdadeiro Dominador não grita, ele apenas indica e o outro obedece porque o seu prazer é dar prazer.â€
(Palavras de P., meu ex-namorado Dominador)
A questão é que entre Dominadores, switchers ou submissos, eu prefiro aquele que eu tiver interesse na hora. Evito o rótulo e respeito o ser humano, sem me importar se é isto ou aquilo, até porque sempre digo que gosto de ser eu. Como não aceitar o outro como é? Tenho uma tendência a Dominação, mas já me vi em situações de submissão e tive prazer. Não sei se sou switcher, creio que a definição mais acertada seria dizer que sou uma mente Dominadora em um corpo eventualmente masoquista, mas nem isso é uma verdade absoluta. Em se tratando de mim, sou como a Radical Chic do Miguel Paiva, “Penso, logo mudo de idéiaâ€.
Meus meninos
Eu não tento com o Me and My Secret Life convencer ninguém a ser BDSM. Sei que escrevo para mim, porque escrever sobre isso entre outras coisas me faz bem e me ajuda a conhecer um pouco mais de mim. Quanto mais verbalizo mais me conheço e quanto mais me conheço mais me respeito e aceito.
Quando penso em meus meninos, tanto M. (meu masoquista preferido) quanto o meu F., eu fico feliz que em um mundo tão doido e diversificado eu tenha esbarrado com eles, homens tão inteligentes e interessantes que apesar de vidas tão diferentes da minha me amam, respeitam e me aceitam tanto quanto eu, que sou recÃproca neste carinho, respeito e aceitação. Costumo dizer que eles me vêem através de lentes cor de rosa e que eu não apenas amo como preciso deste olhar de cada um deles sobre mim. E brinco, que o dia que eles deixarem de me ver assim, eu arrumo outros que o façam. E é claro que a teoria na prática é sempre diferente, principalmente porque o BDSM é um jogo entre pessoas. E pessoas sentem, ressentem, sofrem… Mas tudo pode ser minimizado quando há verdade e respeito. E isso existe entre nós.
E é por isso que quando leio ou ouço alguém dizer que não entende como pode existir alguém assim, tão submisso e masoquista quanto eles, apenas sorrio comigo. Não precisam entender. Eu entendo e isso já basta pra nós.