Conheci F. em uma festa fetichista na comemoração do meu aniversário. Eu nunca o tinha visto, mas na hora que bati o olho fiz a proposta: “Acabei de ganhar um chinelo lindo e estou doida para estreá-lo esquentando na bunda de alguém. Pode ser você?â€. E sendo ele um submisso/masoquista nem preciso dizer que se iniciava, no mÃnimo, uma grande amizade. No entanto, aconteceu mais que isso.
De uma maneira que eu nunca soube explicar nos envolvemos, e só não rolou mais porque ambos vivÃamos momentos diferentes. Ele, finalmente liberto do casamento (agora um casamento aberto) tinha uma necessidade absurda de galinhar (expressão que usamos aqui no RJ para o cara que quer bicar todas), enquanto eu estava cansada da brincadeira do ter e não ter. Preferia estar só à má companhia. Só hoje, quase oito meses depois desse primeiro contato, depois de poucos encontros e muitos desencontros, decidimos ficar juntos.
Sempre que falo de BDSM (Bondage, Disciplina, Sadismo e Masoquismo – para saber mais vá ao site Desejo Secreto) sou cautelosa e isso se dá por alguns motivos. Apesar de gostar e muito do BDSM, das práticas e jogos de DomÃnio e submissão, não sou uma BDSeMer tÃpica. Tenho uma tendência forte à Dominação, mas não sou nada estereotipada, sou carinhosa, cuidadosa e bastante controversa quando admito que meu corpo seja eventualmente masoquista. Acho até que por este motivo eu tenha sempre a necessidade de estar envolvida com mais de uma pessoa, pois nunca encontro em um só tudo o que quero ou espero.
Eu e F. estamos encantados, envolvidos e apaixonados, no entanto, ele precisava de uma lição por ter sido tão arredio ao comprometimento e foi numa festa fetichista que eu vi a possibilidade de discipliná-lo de uma maneira bastante insólita.
Ao longo deste tempo separado, fui ousada numa estratégia talvez bem kamikase, F. esteve livre para conhecer quantas quisesse como quisesse e foi inclusive propriedade de uma Dominadora freqüentadora de festas. Submisso conhecido no meio, ele era algo como submisso de todas, servia indiscriminadamente, apanhava e era humilhado por quem apontasse para o chão e estapeasse a sua face. No final das festas voltava para casa só, com um grande sentimento de vazio por ter pertencido, sem pertencer. No fundo, tudo o que o ser humano quer, BDSeMer ou não, é amar e ser amado. Servir por servir, não tem graça, bom é servir alguém, ser cuidado e Dominado por ele. Há oito meses eu esperei que ele chegasse a este raciocÃnio, mesmo correndo o risco que se apaixonasse por outra. Dei sorte… Ufa!
Já antes da festa fiz questão de dizer que ele não estava simplesmente me acompanhando, ele era meu e devia obediência a mim. E já na entrada esbarramos com uma Dominadora, que acostumada à submissão desmedida, no meio do bar, apontou para o pé indicando que ele devia beijá-lo. Imediatamente ele procurou meu olhar, que diante do fato dela ser uma amiga muito querida, eu fiz um sinal de consentimento com a cabeça e ele se ajoelhou e beijou a ponta do seu sapato. Ali começava uma longa noite pra ele. Minha amiga comentou que na mais recente conversa deles ele a desafiou dizendo agüentar a surra que fosse. Sorri e disse que tinha muitos “brinquedos†na bolsa, que ela poderia escolher com qual deles iria aplicar a lição. E olhando pra ele disse: “Isso é pra você aprender a nunca desafiar uma Dominadora!â€.
Durante a noite eu deixei que ele fosse usado e abusado por todas as mulheres daquela festa. Foi chicoteado, estapeado, humilhado, mas… Sempre mediante a minha autorização, sob o meu olhar e supervisão. Ficamos juntos por toda a noite, abraçando e beijando, mesmo em momentos que deixei outro homem acariciar e adorar meus pés. E já no fim da festa ele sorriu sozinho e eu perguntei o porquê do sorriso. Ele disse que havia entendido a lição. Fazendo-me de desentendida perguntei “que lição†e ele continuou:
– Durante todos estes meses em todas estas festas eu passei por quase tudo e até um pouquinho mais do que aconteceu hoje. No entanto, apesar de todo empenho e devoção à Dominadora a qual eu me submetia, sabia que depois daquele momento não havia mais nada. Hoje, enquanto você me emprestou a cada uma delas, por todo o tempo eu senti teu olhar em mim, me guardando. E mesmo nos momentos em que outros homens estiveram aos seus pés, te senti a me olhar, me fazendo participar de tudo, como se fosse a minha própria boca e mãos neles. Não sou capaz de explicar com palavras o que senti. Obrigado pela lição.
E pela primeira vez em muito tempo pudemos ficar ali juntinhos, abraçados e felizes.