Nem sempre foi assim

Eu já tentei algumas vezes escrever sobre este assunto e sempre travo, no fundo ainda é um tabu pra mim, mas como aqui é o meu divã, posso desenvolver sobre o assunto que eu quiser, portanto…

Acho que uma das coisas que mais me orgulho quando paro para analisar minha vida secreta, é que eu sou não apenas uma sobrevivente sou uma vencedora. Lidar com traumas é algo extremamente complicado, cada um reage de uma maneira, eu encontrei a minha. No início da maioridade dois fatos mudaram a minha vida para sempre e se por muitos anos eu tentei esquecer, depois de muito tempo descobri que lembrar e verbalizar me fez um bem ainda maior que guardar só pra mim.

Aos dezessete anos engravidei de um homem que eu amava, literalmente nas coxas, com o famoso e ineficaz coito interrompido. Para os íntimos, gozar fora. E como se não bastasse a frustração de estar gerando um filho que jamais poderia ser presidente, afinal não seria metido e gozado, antes mesmo de contar para o moço a novidade ele veio com cara de réu me dizer que outra estava grávida dele. Resultado? Aborto, decisão minha, que de maneira bem egoísta jamais revelei a ele. É claro que o relacionamento acabou ali, e até hoje ele pensa que foi porque a menina engravidou, mas… O acontecido me fez tomar uma decisão importantíssima, jamais trepar sem camisinha. De alguma coisa valeu meu sofrimento.

É claro que depois disso eu passei a ficar mais seletiva e resolvi sossegar por um tempo. Foi quando mais uma vez o destino me pregou uma peça, dessa vez ainda pior. Em uma situação completamente insólita fui estuprada por um conhecido. Colega de farra, namorado de uma colega. O pior, é que ele estava tão doido, mas tão doido de drogado, que teve a capacidade de dizer que gostava de mulher como eu, braba, pois é claro eu relutei e muito. O ditado que diz: “se o estupro é inevitável, relaxa e goza” é impossível. Só alguém muito doente para gozar sendo forçado. Creio que não é à toa que eu tenha escolhido o SM para me realizar em muitas de minhas fantasias sexuais, afinal, a consensualidade é uma palavra de lei no SM. Se o que eu vivi fosse SM, no momento que eu tivesse dito a palavra de segurança ele teria parado. Só que não era. Eu disse não e ele não parou. Não tive coragem de contar pra ninguém, só chorei muito e morri de vergonha, porque pensei que em algum momento eu pudesse ter passado uma mensagem errada pra ele. Só que não. Foi insensibilidade e inconseqüência mesmo. A questão é que pouco mais de seis meses depois ele morreu, acidente de carro, doidão para variar. É claro que eu não lamentei. Achei que a história tinha morrido ali, mas não.

Durante dois anos eu não consegui trepar com ninguém. Me apaixonei por um cara super especial, bem que tentei algumas vezes, mas não rolava. Desenvolvi uma vaginite de origem psicológica. A xota trancava que não entrava nada, nem dedo. O cara chegou a me pedir em casamento, mas… Fala sério, não dava. Literalmente. O que sei dizer é que só voltei a ter vida sexual depois de uma situação bem casual, em que o cara era uns três anos mais novo e não havia nenhum envolvimento emocional dele comigo. No fundo ele queria trepar e eu… Bem, eu só queria saber se conseguiria. Somos amigos até hoje, e ele nunca soube o bem que me fez. Rolou algumas muitas vezes entre eu e ele ao longo da nossa vida até ele se apaixonar e casar. Parece ser um cara bem fiel e feliz.

Descobri que sem grandes laços afetivos, sem esperar muito ou quase nada do outro, os relacionamentos mesmo que casuais aconteciam bem e gostoso. E só não confiava muito, como não sou de confiar até hoje. Adoro os homens, mas confiar neles é algo absurdo pra mim. Namorei alguns. Por pouco tempo, por muito tempo, mas sempre mantive o pé atrás. Quando cheguei aos trinta essa coisa de não me apegar a ninguém foi me incomodando um pouco e aos trinta e três eu tive uma grande crise existencial que colocou minha vida de ponta a cabeça. Curiosamente, a única coisa que não ficou de ponta a cabeça foi o sexo. Na minha vida secreta, tudo sempre correu em paralelo, e intocado.

Hoje vivo um momento diferente. Desde o dia que vi estes dois fatos como divisores de águas em minha vida, eu reconheci que estabeleci uma grande reserva com os meus possíveis parceiros, não os de cama, mas os de vida. Previamente eu já havia julgado e condenado cada um dos homens que se aproximou de mim. O sucesso da minha vida secreta se deveu ao fato de eu descobrir que é possível me divertir sem pensar muito no que vem depois. Resolvi adotar isso para a minha vida real também, mas muito recentemente, ainda estou a engatinhar neste sentido. E tenho sido mais feliz. Um dia de cada vez, de verdade e não apenas na intenção. Quem diria que a lição mais importante da minha vida eu tirei do que há de mais simples e ao mesmo tempo mais complexo, o sexo. Não sou exemplo de nada, mas fica aqui a minha história para provar que nem sempre foi assim.