A Boca

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Assim que cheguei ao bar, meus olhos logo encontraram aquela boca. Sabe quando a gente fica hipnotizada? Pois é… Fiquei assim, hipnotizada por aquela boca. É claro que todo o conjunto combinava. Ele era moreno, alto, ombros fortes, nariz angular, cabelos aparentemente sedosos daqueles que quando bate o vento voa igual pluma, mas era a boca carnuda e sorridente que me encantava.

É claro que em determinado momento ele percebeu meus olhares, e começou a trocá-los também. E entre sorrisos que iam e vinham percebi que ele levantou e seguiu em direção ao banheiro, sei que não era uma deixa, entre tantos chopes era uma necessidade natural mesmo, mas eu vi ali uma oportunidade e segui logo atrás.

Como em quase todo bar, banheiro masculino não costuma ser perto do feminino, quando ele saiu do banheiro e deu de cara comigo no corredor estreito deve ter levado um susto, sorriu meio sem graça e disse:

– Esse banheiro é masculino, o feminino fica do outro lado.

– Eu sei! Só que eu não queria ir ao banheiro… – falei bem calma e olhando diretamente em seus lábios.

– Não?! – ele perguntou visivelmente curioso.

– Não… – eu disse dando um passo à frente, diminuindo a distância segura que estávamos até então.

– E o que veio fazer aqui então?! – falou já sabendo a resposta, mas dando uma de desentendido, parecia estar gostando do jogo.

Agora sim, era a deixa que eu precisava, fiquei então na pontinha dos pés e encostei minhas mãos em seu torax, ele era muito mais alto que eu. Aproximei meus lábios do dele suavemente e rocei naquela boca linda dando um beijo delicadamente erótico com uma calma absurda e calculada, deixando roçar também meus mamilos rijos em seu peito. Fiz isso e me afastei um pouco, sorrindo. Só que antes de me afastar completamente ele me tomou pela cintura unindo os nossos corpos e debruçando aquela boca voluptuosa sobre a minha. E o que poderia ser o final perfeito, ou melhor, o começo ideal… Foi catastrófico!

Aquela boca tão linda invadiu a minha com uma ânsia absurda, que eu inicialmente encarei como desejo, mas depois de um tempo vi que podia ser linda, mas não combinava em nada com a minha. Línguas, lábios, dentes, nada entrava em sincronia, parecia querer me comer naquele beijo, literalmente, culminando numa falta de jeito. Até hoje eu não sei se ele quis me dar uma lição do tipo “não cutuque onça com vara curta” ou se o nosso beijo não combinava mesmo, só sei que ele encostou-me à parede de maneira tão urgente e sôfrega, que parecia querer me sufocar. Ainda tentei ser espirituosa, sorrir, gracejar dizendo “pra que tanta pressa”, mas nada deu jeito. E entendendo isso, aproveitei a chegada de um homem que queria ir ao banheiro e nós atrapalhávamos o caminho, para me desvencilhar daquele abraço e voltar à minha mesa aliviada, já que depois daquele arroubo de paixão repentina e desajeitada, eu constatei que beijo é uma coisa complicada. A gente gosta ou não gosta. O dele eu não gostei.

Ele ainda demorou um pouco para voltar à mesa, talvez para recuperar-se do amasso. Beijo bom ou não ele ficou bem empolgadinho. Como ambos estávamos em mesas mistas, com amigos e amigas, não sei bem se alguma das moças da mesa dele era alguma paquera ou não, tampouco ele sabia se um dos meus amigos era algo meu. Vi que assim que sentou, comentou algo com um amigo que não parou mais de me olhar também, mas eu não liguei. Continuei minha conversa animada, lançando alguns olhares e sorrisos de vez em quando por puro charminho, mas só.

Foi então que em determinado momento, o garçom aproximou-se discretamente de mim e passou um guardanapo dobrado. Abri por baixo da mesa e vi que nele havia um telefone e um recado.

“Você me deixou doido, me liga, nunca provei uma boca tão deliciosa. Beijos, F.”

Olhei então pra mesa dele, que parecia ansioso esperar uma reação minha. Lancei um sorriso e fiz um gesto assentindo com a cabeça. No entanto, fiquei aliviada quando meus amigos pediram a conta e fomos embora. No carro eu abri novamente o bilhete e balancei a cabeça negativamente em sinal de lamento. “Nunca provei uma boca tão deliciosa” ele dizia. Que pena que eu não podia dizer o mesmo… É claro que eu nunca liguei.