Este texto faz parte da blogagem coletiva, Por Amor à Vida, iniciativa do grupo Luluzinha Camp, disseminando de forma pessoal a cultura de PROTEÇÃO a mulher, a vida e as diferenças humanas. Porque triste daquele que não vê, a beleza que há na diversidade…

Este é um texto totalmente autobiográfico. Senti ncessidade de compartilhar um pouco de mim.
Sou de uma famÃlia de mulheres. Minha avó materna era nordestina, a segunda (terceira?) de uma famÃlia de cinco irmãs, que foi criada por uma tia, após a morte prematura de seus pais. Casou tres vezes, sempre com homens mais jovens, e teve quatro filhas, que foram criadas por uma mulher separada, quando ser separada era pior que ser leprosa. Casou as quatro na Igreja, com um orgulho de pessoa simples, no melhor estilo faz o que eu digo, mas não faz o que eu faço.
Já minha avó paterna, era mais convencional, nortista, após a morte relativamente precoce do meu avô se transformou na tÃpica viúva matriarca de uma famÃlia de oito filhos, dois deles adotados. Sempre cuidou da famÃlia sem deixar faltar nada, rÃgida, com um simples olhar aprovava ou condenava algo. Culta, apesar da pouca educação convencional, fazia questão de votar, mesmo após a não obrigatoriedade devido à idade avançada, era um direito, ela não iria desperdiçar… Era uma devoradora de livros, devota da cultura espÃrita, dizia que longevidade nem sempre é uma benção. Morreu aos 97 anos, revoltada por ter perdido sua autonomia após um AVC.
Duas mulheres diferentes que de certa forma me serviram de bússula, ambas extremamente sofredoras, e ao mesmo tempo tão ativistas,  em um tempo em que as mulheres não tinham voz. Para a minha avó paterna, que nunca pareceu ter qualquer prazer com o sexo, a morte do meu avô foi providencial, “pelo menos não teria mais que se deitar com aquele velho safadoâ€, enquanto minha avó materna, aos setenta anos, ouso dizer que morreu de amor, de amar demais quem não conseguiu ou não soube retribuir. Duas mulheres tão diferentes, que me ensinaram coisas tão distintas: a entrega é tão importante quanto a racionalidade. É o equilÃbrio que move a vida.
Em contraponto, sou filha de uma mulher espetacular, que foi casada com um homem espetacular que morreu aos 46 anos, deixando minha mãe viúva aos 36 anos, preparando-a ao longo de uma vida: “Minha filha, viúvo é aquele que morre…” Nem por isso ela teve medo de viver, voltar a trabalhar, estudar, namorar… E apesar de não ter voltado a casar, e hoje não estar em um relacionamento afetivo, costuma brincar que não se aposentou sexualmente, apenas está em licença prêmio. Minha mãe me inspira a ser feliz, seja como for, pois se pra ela não existiram fórmulas para a felicidade, porque eu preciso ter alguma?
(Aliás, a mais nova da minha pornô mamã, é a venda de produtos eróticos por catálogo, aos 69 anos de idade)
Sei que eu não sou uma pessoa comum, porque fui criada por mulheres que me deram o direito de ser incomum. Aliás, é o que luto pra ser todo dia, única. É o que gostaria que todos se dessem esse direito, de serem únicos. Com seus exemplos de vida, elas me deram norte, sul, leste e oeste. Que caminho seguir, não importa, esta escolha é minha. Esta escolha tem que ser de cada um.
No Dia Internacional da Mulher, nessa blogagem coletiva Por Amor à Vida, homenageio as mulheres da minha famÃlia, tão diferentes em cor, credo e maneira de agir. Que mostraram certo e errado, errando e acertando, vivendo e, sobretudo, me preparando para também viver, o meu certo ou errado, seja como for.
Beijos na minha super mãe que é meu porto seguro enquanto ouso viver meu porto alegre, às minhas tias que de maneira tão diferentes me fazem sentir o quanto sou amada acima de tudo e apesar de tudo e, principalmente, beijos in memorian à vovó e à vozinha, pois sem mulheres fortes como elas, jamais eu poderia ser quem sou!
