Hoje é o lançamento paulista do livro Onde Perdemos Tudo , do queridÃssimo Alex Castro, pela Editora Oficina Raquel, com projeto gráfico da artista plástica Isabel Löfgren e com orelha da Fal.
Segundo o autor, são “cinco contos, unidos pelo tema comum da perda. Perda de amores, perda de amizades, perda da honra, perda da vida. Apesar disso, não são contos tristes – ou não muito, pelo menos. Toda perda também é um lugar de encontro, um ponto de recomeço.”
Ele completa dizendo que “Onde Perdemos Tudo é o meu livro mais zen, apesar de ter sido escrito antes de eu conhecer qualquer coisa sobre esse assunto. Um dos contos é encancaradamente baseado em uma fábula que, como fui descobrir depois, era um koan zen. O projeto gráfico da Isabel só faz deixar essa ligação ainda mais viva.”
Medo… Não existem coincidências, né?!
Como disse: O lançamento paulista é hoje, sexta, 14 de outubro, às 19:30h, na Casa das Rosas.
O lançamento carioca vai ser na quinta, 20 de outubro, às 18h, no Castelinho do Flamengo.
O Alex disponibilizou um pequeno trecho, quase safado,  do conto A Falta que Nos Fazem os Figos, e eu compartilho com vocês. Estarei por lá esta noite.
Gabriela passou o resto da noite tentando me consolar, mas foi inútil. Aquilo era o pior pesadelo de qualquer escritor — ainda mais de um novato como eu — e nada mudaria isso.
E havia agravantes: Onde Perdemos Tudo já estava no prelo! Minha primeira reação foi ligar para Raquel, minha editora, e perguntar se seria possÃvel parar a impressão do livro agora para retirar o conto, e que eu pagaria os prejuÃzos depois, mas Gabriela não me deixou incomodar ninguém à quela hora da madrugada, ainda mais uma mãe de bebê recém-nascido, dizendo que eu poderia falar com ela pela manhã. Quando percebeu que uma resposta positiva para essa pergunta seria a única maneira de me acalmar, ela permitiu que eu ligasse. Ninguém atendeu ao telefone.
Gabriela cedo começou a insistir para que fizéssemos amor, pois isso me relaxaria a cabeça. Neguei enquanto pude — eu, compreensivelmente, não estava no clima — mas ela acabou levando a melhor e o resultado foi que eu, em pleno vigor dos meus trinta e sete anos, brochei pela primeira vez. Gabriela ainda tentou todos aqueles truques ressuscitadores que ela faz com os pés, sem conseguir nenhum sinal de vida. A pobre criatura, consciente de sua condição de cúmplice no crime de plágio literário — o verdadeiro culpado havia sido o cérebro — se recusou a participar de quaisquer festividades.
Gabriela desistiu de sexo.
— Será que você não leu esse conto quando era pequeno — Ela sugeriu, tentando racionalizar a situação — e depois esqueceu, mas ele acabou ficando gravado em algum canto do seu cérebro?
— Nesse caso, o conto teria saÃdo apenas parecido, nunca igual. Até o tÃtulo é idêntico! A Falta que nos Fazem os Figos! E olha que não é um tÃtulo comum. Quem é que vai acreditar que não foi o plágio mais descarado da história da literatura?!
Outro agravante: por que diabos eu resolvera ambientar o conto em um bonde, logo eu que nunca nem vi um bonde na vida? Inexplicável também era a menção à festa judaica do pessach. Por que eu não usara algum evento mais próximo a mim, agnóstico de formação católica, como a páscoa ou o natal? Por que logo pessach, uma festa da qual eu participara apenas uma vez, na casa de Gabriela aquele ano, e que com certeza mal devia saber o que era aos dezessete?
A todos esses poréns, eu respondia: — Não sei. A ideia me veio assim e não vi motivo para mudar depois.
Gabriela tentou apaziguar:
— Pelo menos o Gol é desconhecido. — Ela disse, como se fosse algum consolo — Eu chequei e ele só publicou cinco livros, entre as décadas de vinte e cinquenta, e eles nunca foram reeditados. Ninguém vai perceber a coincidência.
Depois de agradecer o uso eufemÃstico que ela fizera da palavra coincidência, fui obrigado a iluminá-la quanto à verdadeira natureza da situação. A obscuridade de Gol piorava o crime, pois todos pensariam que eu o plagiei porque as chances de ser pego eram menores. Estaria melhor se o conto fosse do Drummond, por exemplo, que ninguém seria louco de plagiar. Nesse caso, a hipótese de coincidência se faria mais verossÃmil.
Ela colocou a mão sobre a minha e disse:
— Eu acredito.
— É. Você e a minha mãe. Talvez nem meu pai.
Ela esticou a perna e acariciou meu joelho com seu dedão do pé, algo que quase sempre me deixava excitado, mas eu me levantei, a palavra plágio passeando por minha cabeça.
— Eu tenho certeza — Ela disse, reconfortante — de que amanhã nós conseguiremos dar um jeito para que o livro não sej—
Parou de súbito, pois a noite conseguira me vencer. As horas discutindo e rebatendo as racionalizações de Gabriela haviam feito com que eu também mantivesse minha cabeça fria, mas a enormidade da tragédia se derramaria sobre mim cedo ou tarde.
Tudo o que eu planejara não iria acontecer. Minha carreira literária fora abortada prematuramente e eu nem cheguei a ser considerado promissor. Meus sonhos, assim como as disposições em contrário, haviam sido revogados. Médico condenado por imperÃcia, seria proibido de praticar minha profissão. Em um instante, réu de um crime que não cometi e confrontado com provas irrefutáveis de minha culpa, eu olhava pra frente e não via nada.
Comecei a chorar como nunca chorara antes. Grandes golfadas que saÃam em espasmos de ar, impedindo-me de falar quaisquer palavras que eu por acaso pudesse ter. Mas eu não tinha nenhuma, apenas lágrimas.
Gabriela me pegou pelo braço e me levou até a cama, mas nem mesmo lá consegui assumir uma posição relaxada. Caà de quatro, com a cabeça enfiada no cobertor, chorando, enquanto Gabriela passava as mãos pelos ossos protuberantes das minhas costas. Por um longo tempo ficamos assim, os dois nus, até que eu dormi.
O único pensamento formal que percebi ter tido durante esse perÃodo foi que aquela era uma cena tão patética que com certeza daria um conto. Um conto no qual eu não gostaria de estar.
