
Enquanto eu arrumava a casa ansiosa por recebê-la, detinha-me em pequenos detalhes. Fazia dois dias que eu só pensava nela, na sua chegada. Desde a ida ao mercado para comprar queijos e vinhos, até coisas bobas de arrumação, tudo era motivo para afastar um pouco a idéia fixa de tê-la ao meu lado. Se o banheiro estava impecavelmente limpo, a cama devidamente arrumada… Bobagens do dia a dia, mas que me ocupavam a mente enquanto ela não vinha.
Tomei um banho quente, demorado, morava em uma cidade fria, mas linda demais. Passei hidratante em meu corpo, a pele exigia tais cuidados, mas naquela tarde havia uma conotação erótica no ato tão corriqueiro. Eu esperava por ela. Vesti o roupão, pus uma toalha na cabeça, olhei para o relógio e vi que ainda faltava uma hora até chegar. Viria de passagem, na volta de um passeio a uma cidade próxima à minha, desviaria o itinerário e passaria a tarde comigo antes de voltar pra casa.
Sentei diante do computador e comecei a reler nossos e-mails, rever as fotos trocadas, os vÃdeos safadinhos, poesias… P. era um pouco mais nova que eu, mas já havia sido casada e tinha uma filha de seis anos. Não tinha namorado no momento, ainda falava muito do ex, mas o que nos aproximou não foi uma vida parecida, tampouco uma vida diferente. P. e eu nos tornamos amigas após uma conversa boba num chat do site de relacionamentos que éramos associadas. Onde, inicialmente, apenas reclamamos da dificuldade de conhecer homens realmente interessantes. Ambas buscávamos um namorado, companheiro, um amigo, alguém para compartilhar nossos momentos livres da vida corrida que levávamos. Acabamos conhecendo uma a outra e apesar de nenhuma de nós duas ter vivido ainda uma relação homossexual, descobrimos haver uma curiosidade enorme, apesar de toda a nossa história pregressa ser heterossexual.
Lembrei de uma noite em que eu teclava com ela no MSN e em meio a um assunto corriqueiro P. me perguntou de uma maneira tão direta que eu fiquei até meio sem graça na hora. “Você já teve um caso com alguma menina, B?†e eu que realmente nunca tinha vivido nada assim, respondi sinceramente que não, mas não sem antes deixar de lançar um “por quê?â€. E daà o assunto passou a focar a curiosidade, os desejos escondidos, comentamos de experiências furtivas. Ela comentou da amiga que beijou certa vez em um carnaval, muito doida de cerveja. Eu comentei que já havia estado na cama a três, mas que não havia tido coragem para sequer tocar a outra menina, e por ali foi… Aquela foi a primeira de muitas conversas. Mais tarde P. admitiu que quando me chamou para o bate papo, o fez por que o meu perfil, apesar de heterossexual, tinha uma liberalidade diferente implÃcita em minhas palavras, sem contar que ela achou minha boca linda.
Depois daquela conversa, nossos assuntos mudaram um pouco, e apesar de ainda continuar a falar de nossos encontros, desencontros e problemas no trabalho, eventualmente conversávamos sobre a curiosidade e a possibilidade de ficarmos um dia juntas. Eu me sentia muito estranha em ansiar chegar a noite para teclar com ela. Ansiar pelas fotos do seu corpo, que ela revelava em doses calculadas, mostrando hora um seio, noutra um pedaço da bunda, noutra os pelos da xota… Eram fotos que o marido havia feito e quando P. comprou uma web cam, passou a se mostrar pra mim on line. Atitude que foi depois retribuÃda quando eu comprei a minha. Éramos como duas crianças descobrindo o sexo, mas principalmente as sensações.
Naquela tarde eu a esperava ansiosa, como criança esperando a abertura dos presentes em noite de natal. De certa forma eu já havia sonhado tanto com o momento, repassado tantas vezes mentalmente que já chegava a rir nervosamente sozinha, quando o assunto voltava à mente. Deitei na cama então, e para relaxar entreabri minhas pernas e comecei a tocar-me, imaginando que eram os dedos, as mãos de P. a acariciar-me. Gozei algumas vezes ali, sozinha, mas com a imagem dela, o som da sua voz em meu pensamento até que… Adormeci!
Quando acordei já era noite, a tarde havia passado e ela não veio. Procurei meu celular havia duas chamadas perdidas, eram dela. Liguei em retorno e perguntei por que ela não veio se havia acontecido alguma coisa séria e ela disse que não, que à noite entraria no MSN e me explicaria melhor. Naquela noite ela não entrou, e nem em muitas mais. Enviei um e-mail para ela e recebi uma resposta envergonhada que veio cheia de desculpas, mas no fundo, ela só não dizia a verdade: “Eu não tive coragem…â€
Depois disso ainda tiveram mais dois desencontros, nesse meio tempo conheci a B. e depois a T., a minha real primeira vez com menina. Eu e P. fomos nos distanciando, até não ter mais contato. Recentemente nos achamos novamente no Orkut, mas… A aura de magia se foi. Acho que eu também tive medo e recebi com certo alÃvio a recusa, principalmente porque tinha medo de me apaixonar por uma mulher e finalmente entender-me como bissexual. Que bobinha… Como se já não estivesse apaixonada e bissexual não fosse!