Shortbus, uma reflexão sexual

Passei o carnaval revendo filmes convencionais com cenas de sexo reais. Ou no mínimo com simulações bem convincentes, e não aquele soft porn que a gente vê por aí. Shortbus de John Cameron Mitchell foi um deles. Afinal, este filme ficou bem conhecido pelas cenas de sexo e  orgasmos reais! Inclusive já até comentei por aqui em Shortbus, Gozado de Verdade..

No entanto, se me perguntar porque gostei tanto do filme, posso afirmar que nem é pelo tanto de cenas explícitas onde genitais variados em N posições e práticas sexuais são mostrados à exaustão. O filme é bom, um ótimo entretenimento e, sobretudo, nos leva à reflexão não sobre a sexualidade do outro, mas sobre a nossa própria sexualidade.

O filme foi  bem produzido, reza a lenda que levou quase três anos para ser  feito, da idéia e escolha atípica do elenco (ele convocou a galera pela internet, mais de 400 pessoas enviaram vídeos) ao tom leve e bem humorado que surgiu ao longo do processo criativo (dizem que os próprios atores deram pitacos). Dando ao elenco chance de se conhecer e criar intimidade, até mesmo para o improviso.

E assim como no primeiro filme do diretor, Hedwig,  que teve a música como fio condutor de sua história (e por acaso também enfoca relacionamento e sexo), em Shortbus foi o sexo que conduziu o tema, mas de maneira diferente quem ganhou fomos nós com a reflexão sobre sexualidade.

Pena que as críticas focaram mais na trepação explícita (não por acaso) do que na mensagem sobrevivente de uma Manhatan pós 11 de setembro, onde a permeabilidade novaiorquina (até citada no filme) se viu traída, violada, com necessidade de ser reciclada para reaproximar, reaconchegar  e, de certa forma, confortar a tragédia que abateu toda uma nação.

Com diálogos interessantíssimos e um humor sensacional (o ménage-à-trois gay com direito ao hino nacional é hilário), em shortbus a nudez e o sexo fazem parte da história exatamente como fazem parte da nossa vida. Às vezes naturalmente unindo, noutras confundindo, desfocando, ou mesmo (equivocadamente) como consolo para todos os males.

No caso do filme, Sophie, uma terapeuta de casais vê sua relação em crise, pois é pré-orgástica, ou seja, fica no quase (como 70% das mulheres segundo ela mesma comenta), sempre, apesar de ter um sexo extremamente diversificado com o marido. Em seu consultório, ela começa a tratar um casal gay, James e Jamie, também em crise e pensando em trazer uma terceira pessoa para a relação. Eles frequentam o Shortbus, e convidam Sophie a conhecer o local, uma espécie de bar/casa de swing/ponto de encontro de um grupo bastante eclético.

As personagens secundárias não são menos interessantes. Severin é uma Dominatrix que odeia o que faz, se propõe a ajudar a terapeuta a aprender a gozar, mas ela mesma não sabe como se ajudar, já que tem dificuldade em se relacionar com as pessoas. Rob, o marido da terapeuta a ama, mas se ressente por não conseguir ser capaz de lhe proporcionar um orgasmo, até porque ele mesmo satisfaz seus desejos de submissão se masturbando online assistindo  videoclipes sadomasô. Um ex-prefeito da cidade de Nova York que sente culpa por não ter se engajado mais à causa da AIDS por ter vivido uma vida no armário. Ou mesmo o vizinho voyeur que, sem ter TV a cabo,  há anos abserva a vida do casal gay e isso acaba ajudando o final feliz da trama.

Enfim… Se já assistiu, reveja, se ainda não, confira a cena final, totalmente apoteótica onde a música In The End de Scott Matthew (o barbudão que faz ponta como músico no Shortbus) é cantada por Justin Bond (famosa Drag Queen Novaiorquina) e  embala todo este sentimento catártico.