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Incesto: Mitos e Verdades

O tema incesto volta à roda, desta vez sob o ponto de vista da nossa nova colunista, Nádia.  Que dá sua opinião fazendo um apanhado geral sobre as questões psicológicas, culturais, mas sobretudo sociais que envolvem o tema em questão. Das lendas e mitos que envolvem o assunto, ao preconceito social vigente. Independente de concordar ou discordar, o texto traz uma nova visão (eu e o Daniel também já falamos do assunto) e, principalmente, nos leva à reflexão… Toda forma de amor vale à pena?!

O mito do boto cor de rosa

O mito diz que o boto é encantado e nas primeiras horas da noite se transforma em gente. Seduz as jovens e as leva para passear e elas sempre voltam grávidas, razão pela qual “o boto” é tido como pai das crianças com paternidade desconhecida. Mas a verdade é que o mito do boto serve para encobrir os responsáveis por muitas das gestações entre garotas jovens que ocorrem na região da Amazônia. Grande parte dos “filhos de boto” é fruto de incesto.

Mas… O que é incesto?

Incesto é a relação sexual entre parentes próximos. Alguns consideram incesto somente relações entre pessoas que sejam parentes consangüíneos, ou seja, pais, filhos e irmãos. Outras pessoas consideram sendo incesto ainda, relações entre parentes por afinidade como enteados, filhos adotivos, irmãos de criação, tios e sobrinhos.

O incesto é algo repudiado pela grande maioria das pessoas, mas no Brasil ele não é punido criminalmente desde que realizado entre maiores de idade capazes de exercer os seus direitos, sem coação ou fraude. Apesar disso, o casamento civil entre membros da mesma família é proibido. A exceção fica por conta da união entre tios com sobrinhos, e os filhos de uma relação incestuosa tem os mesmo direitos de qualquer cidadão brasileiro.

Eu nunca conheci em minha vida pessoas que tenham tido relações incestuosas. Alguns clientes já comentaram algo a respeito, (não posso entrar em detalhes porque seria antiético), mas isso me fez pesquisar mais sobre o tema, até porque não fiquei chocada com as histórias, ao contrário, me surpreendi com minha reação, achando algumas histórias extremamente fantasiosas e outras naturais.

Cada um com o seu cada um

Em matéria de sexo a única coisa que me deixa chocada e revoltada é a pedofilia. Do restante aceito com naturalidade mesmo coisas que eu nunca tenha praticado, porque acredito que cada pessoa em um contexto saudável tem poder de decidir o que é melhor pra si, e não me sinto no direito de repudiar ou julgar.

O incesto e a pedofilia podem ser confundidos por algumas pessoas, embora em determinadas situações estejam ligados. A pedofilia quando praticada entre pessoas da mesma família, também é incesto. Mas estou falando aqui sobre relações entre pessoas adultas e onde os dois estão nisso por vontade própria.

O incesto como tradição?

Em muitos lugares do mundo o incesto é “aceito e permitido”, por exemplo, em alguns vilarejos ribeirinhos da Amazônia, no Brasil. Lá é costume o pai iniciar sexualmente suas filhas menores. A prática é surpreendentemente aceita por aquelas comunidades. A prática do incesto com filhas é tida como uma “tradição” entre eles. Eles costumam dizer que: “quem planta a bananeira tem direito a comer o primeiro fruto”. Entre os ribeirinhos há quem não concorde com isso, mas não consegue reagir, pois respeita a tradição e a cultura do lugar. Quem somos nós para julgar?

Segundo José Raimundo Lippi, professor da USP e pesquisador, no início da humanidade como existiam poucas pessoas e o instinto dizia aos homens que eles vieram ao mundo para se multiplicar, a relação sexual era permitida para todas as pessoas, inclusive ocorria entre pessoas do mesmo sexo. Até porque não se sabia que da relação entre homem e mulher nasciam os filhos. Acreditava-se que a mulher era a “dona” do filho, que produzia a criança de uma forma mágica, religiosa.

Com o aumento da população, descobriu-se que o homem também participava da concepção do filho e com isso foram formando os casais e as famílias e partir de então começou o tabu da homossexualidade e também do incesto, ainda mais por que perceberam que os filhos nascidos das relações entre familiares muitas vezes tinham “defeitos”, devido à genética.

Do começo ao fim

Um filme lançado em novembro do ano passado retrata além do incesto, uma relação homossexual. O filme foi muito criticado pelos moralistas de plantão. “Do Começo ao Fim é uma história de amor. A história de Francisco e Thomás e de sua família: Julieta, Alexandre e Pedro. Com uma narrativa particular o filme pretende contar a história de um amor incondicional como uma possibilidade, como um contraponto para um mundo cheio de violência, medo e intolerância.”

As convenções sociais

Nós como parte da sociedade fomos criados com regras de conduta e moral e muitas vezes não conseguimos aceitar algumas diferenças, principalmente no que diz respeito às relações sexuais. O famoso preconceito que todo mundo tem pouco ou muito, mas ninguém gosta de admitir. Quando se sente na pele a rejeição que o preconceito traz, a pessoa passa a respeitar e entender mais sobre outros aspectos.

Quando eu comecei a me exibir na webcam fazendo disso uma forma de ganhar dinheiro senti que mesmo alguns daqueles que usam o serviço são preconceituosos. Não posso mostrar meu rosto, nem revelar minha identidade para não ser apontada nas ruas como a “vagabunda que não ao invés de arrumar um emprego descente virou puta virtual”. Esse pré julgamento é dolorido, irritante, é péssimo. Mas foi bom para que eu entendesse um pouco mais, o que passam casais do mesmo sexo, por exemplo. E hoje entendo que nada mais é que uma forma de amor. E na verdade não fazem mal algum as pessoas a sua volta, nem são menos dignos só por conta de uma opção sexual diferente da tradicional. Afinal, alguém sabe dizer o que é normal? Eu não sei.

O incesto é um assunto tão “proibido” que por isso fascina tanto. Não gosto muito de contos eróticos, mas nas vezes que parei para ler alguns, sempre tinha pelo menos um sobre incesto.

O incesto na mitologia

Na mitologia grega, onde inclusive encontramos belíssimas lendas com contexto sexual, não são poucos os casos de incesto. Para citar os mais famosos:

  • Édipo – apaixonou-se pela sua madrasta Jocasta e matou o pai para casar-se com ela. Mas veio a descobrir que ela era sua mãe verdadeira e por culpa fura os próprios olhos.
  • Electra – uma princesa que se apaixona pelo pai e assim quando o pai é assassinado, ela manda matar sua mãe em vingança. Na psicanálise usam o termo “complexo de Electra” para designar o desejo da filha pelo pai.
  • Freda – ela se apaixona pelo enteado Hipólito, e não sendo correspondida, inventa uma mentira ao marido Teseu que mata o próprio filho.

Outra figura famosa, e essa existiu mesmo, Caio César, imperador romano conhecido como Calígula, era totalmente libertino ainda no primeiro século. Ele mantinha relações incestuosas com suas irmãs e promovia festas onde a orgia rolava solta. Mas gostava de dizer que essas orgias eram sagradas, feitas para ativar as forças cósmicas, já que se considerava um deus.

Uma breve reflexão sobre o incesto

Em muitas relações incestuosas o que acontece não é falta de caráter, nem problema psiquiátrico, nem desvio de conduta. É amor… e as outras pessoas tratam com repúdia e preconceito. Portanto o problema não está nos praticantes do incesto e sim nos olhos maldosos da sociedade que interpretam amor como algo ruim.

Quando conseguimos nos livrar de preconceitos sentimos uma leveza e uma paz de espírito muito grande, falo por mim. E você, quer tentar rever seus conceitos e experimentar essa paz?

Intervenção da B.

Indico a leitura desta matéria: “Incesto é ‘comum’ e não é denunciado, dizem especialistas”, de Luciana Rossetto, no G1. O texto traz diversos aspectos psicológicos e sociais à partir do ponto de vista de estudiosos  no assunto (antropólogo, psiquiatra,  cientista social).

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Nádia é uma mulher comum, dona-de-casa, casada e com filhos… Que também trabalha como stripper virtual (shows eróticos na webcam mediante pagamento antecipado). Alguém que ama escrever, tem um blog onde registra seu devaneios sobre sexo e outros assuntos. Além do seu blog profissional www.prazervirtual.com


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