Lady Gaga e o erotismo pós-feminista

Lady… O que?

Lady Gaga: Erotic Poker Face?

Ouvi falar de Lady Gaga antes de conhecer sua música. É claro que torci o nariz. Como levar à sério alguém com este nome? Sem contar seu visual fashionista e bizarro. Terrível! Foi meu ex-ficante oficial que, talvez por ter filhas pré-adolescentes, sabia um pouco mais da mocinha, da sua formação musical, e comentou comigo, mas… Nem assim eu simpatizava. Achava (e acho) a moça um produto de marketing. De que me importa se é hermafrodita ou não, bissexual ou não, se fica tantos anos sem trepar, se usa roupas extravagantes? Somente após vê-la tocando com Sir Elton John no palco do Grammy, fiquei de alguma forma surpresa, mas interessada (a moça manda bem ao piano, é afinadinha, sintetizadores são mero detalhe).

Stefani Germanotta, nome real da artista de nome ridículo, é uma mocinha de 24 anos. Estudou em colégio católico, onde iniciou sua formação musical. Talentosa, foi menina prodígio, toca piano desde os 4 anos e compôs sua primeira música aos 13. Apesar do seu interesse por arte, religião e organização socio-política, aos 18 largou os estudos para se dedicar à carreira musical. Aos 19 anos foi contratada por uma gravadora e três meses depois demitida. De volta à casa dos pais, envolveu-se com drogas e passou a se apresentar como artista burlesca. Um produtor musical a ajudou, pois comparou seu estilo vocal à Freddie Mercury e a apelidou de Gaga, por conta da música Radio Gaga do Queen. Desde então ela adotou o apelido como nome artístico e ficou conhecida como Lady Gaga. Foi o cantor Akon que percebeu na compositora de alguns sucessos pop da sua gravadora, um sucesso em potencial e convenceu o presidente da mesma que a moça tinha talento. Com inspirações do glam rock de David Bowie e canções de Queen, misturou batidas eletrônicas com um refrão pop e o resultado a gente já conhece. Músicas que não saem da nossa cabeça.

Fonte: Wikipedia

Impossível negar que Lady Gaga é um fenômeno musical. Independente da qualidade, depois de conhecer um pouco mais da moça e reconhecer que ela provavelmente é muito melhor do que se propõe, é fato que era o seu momento. Carisma, uma ótima estratégia de marketing, ouso dizer que Lady Gaga aconteceu, com esta força, pois o mundo está meio carente de ídolos pop. Quem se importa se a moça tem talento ou não? Quem quer saber que por trás do produto massificado pode ter coisa boa ali? Sempre que penso em Lady Gaga, penso naquelas mulheres bonitas e inteligentes que pra serem notadas preferem optar por um emburrecimento estratégico para não assustar tanto os homens. E isso é lamentável…

Lady Gaga, um ícone Pós-Feminista?

Há algum tempo em uma lista de discussão que faço parte vi uma matéria da Revista Cult, O crime de Lady Gaga, de autoria de Márcia Tiburi. O texto faz uma análise bem interessante da obra-produto de Lady Gaga, que não pode ser analizado separadamente música, dança ou videoclips. É claro que a moça é bem assessorada, isso é inquestionável, mas nem por isso é desmerecido o seu papel como porta voz de uma estética diferenciada. O texto é bastante descritivo e reflexivo, indico a leitura.

Independente de amá-la ou odiá-la tive o cuidado de assistir Paparazzi, Poker Face, Bad Romance, Telephone e, inclusive, o mais recente vídeo Alejandro (creio que o mais fetichista de todos, repleto de crossdressers, referências militares e religiosas). Não estou aqui para comentar dos dotes artísticos da moça, mas sim da safadeza explícita dos seus vídeos. Indico todos no quesito erotismo e safadeza. Fica muito claro o apelo erótico/fetichista em todos eles (como dizem: Sex Sells), assim como referências a outras obras (e isso vai do romantismo do século XIX ao pop de Madonna) e a ironia, o deboche, da mocinha aparentemente frágil que no fim das contas sempre vira o jogo.

É lógico que isso deve ter sido minuciosamente estudado pelos responsáveis por sua imagem, publicitários, roteiristas… Os videoclips são muito mais que a apresentação de sua música, mas sim um conceito, uma nova (?) estética e pensamento. Sempre há muita pegação tanto com homens quanto com mulheres, o que no meu entendimento, mostra muito da sexualidade feminina atual, que busca por uma liberdade sexual extrema, sem estar amarrada a este ou aquele rótulo. Mulheres sem medo de gozar, seja com quem for, mas que, de uma maneira ainda extremamente romântica, sonham com um amor, mesmo que seja um Bad Romance.

I want your ugly / I want your disease / I want your everything / As long as it’s free / I want your love / Love, love, love, I want your love

Eu quero a sua feiura / Eu quero a sua doença / Eu quero o seu tudo / Enquanto é de graça / Eu quero o seu amor / Amor, amor, amor, eu quero o seu amor

Outro ponto que me causou certo espanto e admiração é que a moça em forma física invejável, não ostenta um visual siliconado. Sua estética é absolutamente normal apesar das caras e bocas. Seios naturalmente mínimos, nariz grande (apesar de saber que a moça já fez nasoplastia), estrutura mignon e de uma magreza não anoréxica. Sem a maquiagem e o figurino típico da personagem, a moça não tem nada de super e isso de alguma maneira a aproxima um pouco mais de nós pobres mortais. Lady Gaga consegue ser ao mesmo tempo uma expressão tão real quanto fantástica.

Termino o texto com o trecho final da matéria da Revista Cult (anteriormente citada): “Mas o maior crime de Gaga, aquilo que fará com que tantos a odeiem, não será, no entanto, o feminismo sem-vergonha que ela pratica como uma brincadeira em que o crime é justamente o que compensa? E, como ídolo pop, não poderá soar aos mais conservadores como um modo de rebelar as massas de mulheres subjugadas pela perversa autorização ao gozo, doa a quem doer?”

Parte 2 : Vídeos comentados de Lady Gaga


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