Que o carnaval é uma festa profana, cujas festividades terminam na quarta-feira de cinzas, iniciando enfim o jejum da quaresma (por isso o nome Carnevalle, que remete a um “adeus à carne”), todo mundo sabe. Há também quem diga que o termo vem de bem antes de Cristo (VII e VI A.C.), dos Carrus Navallis, os carros navais que abriam os cortejos das festas de DionÃsio (Baco). No entanto, a questão que nunca entendi muito bem é:  Porque será que tanto homem se veste de mulher no carnaval?
Esta semana, vendo TV, uma enxurrada de informações contaram as origens do carnaval, suas histórias mais remotas, e entre elas um fato interessante. Quando na corte européia o carnaval foi instituÃdo, nobres e plebeus se misturavam à grande festa. Mascarados ou não, havia uma grande inversão. Mulheres podiam travestir-se de homem tendo somente naquele perÃodo o direito a vestir calças compridas (vale lembrar que leis proibiam isso), os homens tinham o direito de fazer troça vestindo-se de mulheres, criando caricaturas exageradas de suas companheiras, plebeus podiam vestir-se como nobres (algo que também era proibido) e vice-versa. Ou seja, o perÃodo do carnaval era um império de fantasias. Tal e qual as antigas festas ao deus DionÃsio (Baco) onde regado a muito vinho e música a liberalidade sexual era também um ponto forte.

Quando era pequena havia um tio, muito divertido, que em todo carnaval se fantasiava de “piranha”. As peças emprestadas da esposa, minha mãe, a maquiagem e a peruca, compunham a caracterização de um espécime que nada se assemelhava a uma mulher tamanha a caricatura. Confesso que era bem estranho ver meu tio tentando agarrar meu pai, ou meus outros tios, roubando beijos ou esfregando-se em todo e qualquer homem que perto dele chegasse. Vale ressaltar que meu tio era conhecido por sua fama de conquistador, não é a toa que anos mais tarde ele e minha tia separaram graças à s suas aventuras extraconjugais. A minha maior estranheza naquela caracterização é que eu nunca havia visto uma mulher agindo daquela forma, quanto mais um homem. Mesmo os gays que eu tinha conhecimento até então, eram muito discretos. Então… Porque a “piranha” do carnaval era tão extravagante?
Se lembrarmos que, apesar das origens mais remotas do carnaval serem relacionadas à festas ao deus DionÃsio (os bacanais), a sobrevivência à cultura do mesmo está bastante ligada ao catolicismo e seu moralismo (o pecado e a culpa até hoje assombram aos mais crentes). Acho que vale concluir que o perÃodo de carnaval acabou sendo sempre uma oportunidade para “liberar geral”, não é mesmo?
Ou seja, será que alguns usavam do direito à fantasia para liberar seus desejos mais secretos sufocados? Quem de nós não sabe deste ou daquele caso que usava o carnaval para sair do armário? Assim como existem heteros convictos (sim!) que usam da sainha apenas como diversão. Quem sabe tudo não passa, realmente, de uma grande brincadeira, um exercÃcio de reinvenção de si mesmo?! O que sei é que o crossdresser no carnaval, principalmente de homens que se vestem de mulheres, já faz parte da nossa cultura carnavalesca, tanto no Brasil quanto no mundo inteiro.