
Sei que estou invadindo a praia do Chef Pimentinha, mas a algum tempo estou com estas coisas em mente. Recentemente, um texto do Sommelier Secreto só veio corroborar com tais pensamentos. O que torna uma comida afrodisÃaca, seus ingredientes, a manufatura ou o todo em si?
Dos petiscos saboreados entre uma boa conversa e vinho, à sucessão – impecável – de pratos que se complementam em visual e sabores, tudo é eroticamente perfeito. O erotismo da gastronomia não está nos pratos propriamente ditos, mas na intenção. Nas frases de duplo sentido, na sutileza da sedução implÃcita em cada gesto, cada suspiro, cada meio sorriso cúmplice, cada olhar cruzado…
É claro que o vinho exerce um poder mágico, afrodisÃaco também, mas tal magia se desfaz no ar diante de uma situação desinteressante. A verdadeira magia está numa conjunção de fatores: o lugar, as pessoas, o clima aconchegante… E isso pode acontecer a dois ou mesmo em uma inocente (?) reunião social.
Se por um lado a impossibilidade das convenções sociais – local inadequado, companhias inesperadas – à s vezes limita a realização, a mesma impossibilidade cria brechas absurdamente excitantes de transformar o encontro comum em inesquecÃvel, combustÃvel para fantasias de momento e futuras. Fugas estratégicas, pedidos e insinuações eroticamente implÃcitos totalmente  imperceptÃveis aos não envolvidos no contexto erótico…
A eficácia de uma refeição afrodisÃaca não é medida pela consumação do ato, mas por todo o resto, inclusive pelas lembranças dos aromas, sabores e sensações proporcionados.
O prazer de saborear cada momento de um prato, da preparação cheia de intenções à confraternização do ato de saboreá-lo em si não é uma parte, mas um todo. A medida deste momento perfeito se dá quando a lembrança de uma frase, quando a sensação de um momento entranha na memória sinestésica dos envolvidos. E então, o que deveria ser um momento, se torna pra sempre…