O texto de hoje faz parte da Blogagem Coletiva: Luluzinhas Pelo Fim da Violência Contra a Mulher. Ontem, 06/12, foi o dia do Laço Branco, uma iniciativa masculina que visa envolver e mobilizar os homens no engajamento pelo fim da violência contra a mulher vale olhar o link. No entanto, hoje quem fala sobre o tema é nossa colaboradora Julia Reyes. Antecipei sua postagem para ficar dentro do cronograma da blogagem coletiva que visa, sobretudo, conscientizar a mulher dos seus direitos.
Ouso dizer que, ao contrário do que dizem,  as mulheres não se emanciparam nem da cintura para baixo… Essa é a verdade. Vide o caso Geyse Arruda: escarcéu por um vestido curto, escárnio por uma postura mais sensual.  Está na hora de rever, homens e mulheres, certos conceitos. Leia, pense, opine! E, sobretudo, ouse uma mudança de opinião, se for o caso. O direito a liberdade sexual é um direito tão importante quanto qualquer outro.

Sob o véu
Por esses dias está rolando a Blogagem Coletiva: Luluzinhas Pelo Fim da Violência Contra a Mulher, um assunto que, obvia e tristemente, também tem seu viés sexual.
Um dos problemas com esse tipo de violência é o mesmo que perpassa pela vida de toda mulher: o que envolve a sua sexualidade é sujo, feio e a culpa é dela. Não foi Eva que incitou Adão ao pecado? Pois então.
Infelizmente este não é um axioma só dos que crêem na BÃblia; sabemos que por toda parte há sociedades que não só vêem a mulher como ser inferior como também aprovam ou fazem vista grossa para a violência de que é vÃtima usando toda sorte de justificativa cultural ou religiosa.
Aqui no Brasil das peladas no carnaval a sexualidade feminina ainda é assunto tabu. Moça que fala abertamente de sexo é rotulada pejorativamente, como se o fato de falar sobre ou apenas assumir desejos diminuÃsse seu valor e a colocasse numa categoria à parte.
Falar da violência sexual contra a mulher é tão ou mais embaraçoso do que de seus prazeres, e não deveria. Não é vergonha para ninguém confessar que esteve envolvido num acidente de carro, mas falar de um caso de estupro
é outra conversa.
Tenho a impressão de que a mulher que sofre uma agressão desse tipo é de alguma forma vista como “menos pura†que as demais, como se o sexo louco e selvagem de que ela participou a enquadrasse junto com as que protagonizam cenas de zoofilia, que dentre os fetiches é um dos que é alvo de maior rejeição.
É importante lembrar que o estupro não é uma experiência de ordem sexual mas sim de violência. Ele não fará parte das lembranças mas dos traumas de quem o sofreu.
Pior é pensar que, se a quem bate o carro já pesa a culpa pelo acontecido, à vÃtima de agressão sexual não basta o arrependimento por ter vestido aquela roupa, ter saÃdo à quela hora, ter aberto a porta. Cabem também os olhares constrangidos dos demais, a vergonha da famÃlia, a sensação de pertencer a uma “segunda divisão†de gente.
O silêncio que é mantido em torno dessas situações é mesmo uma faca de dois gumes, de um lado ferindo a vÃtima que não tem interlocutores e de outro impedindo a apuração de dados consistentes sobre esse tipo de crime que poucas vezes é denunciado e raramente investigado.
Por certo essa é a face mais cruel do véu que procura encobrir a sexualidade feminina. Eu cá tenho me preocupado também com outras questões, como a que foi levantada (com certo exagero, verdade) pelo Alex (www.interney.net/blogs/lll) no twitter:
“em uma relação aberta, o homem pode ser visto como garanhão ou corno, dependendo de quem vê, mas a mulher é sempre puta e vagabunda.â€
Há muitos séculos a sociedade é tolerante com a infidelidade masculina, aceitando que o homem tenha “outros desejosâ€. A mulher que faz que não vê as escapadas do seu homem é vista até com certa apreciação por sua disposição em enfrentar contragostos em prol da manutenção do relacionamento.
Vá o pobre do rapaz assumir que não dá muita bola para as aventuras da esposa. É uma aberração, certamente um coitado de um capacho; nunca uma pessoa segura ou compreensiva.
Já falei pro meu marido que o jeito de podermos nos namorar e viver casos livremente é nos separarmos e virarmos ficantes. O problema é que a gente gosta de morar junto. Mas isso é tema para outra conversa.
Beijos,
Julia Reyes
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Julia Reyes é uma mulher chegando aos quarenta, tem um marido, um filho, um emprego, uma casa, um coração apaixonado, alguns amigos e muitas dúvidas.