Vampiras lésbicas e bissexuais no cinema

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Sábado passado assisti Crepúsculo, domingo e segunda, toda a primeira temporada de True Blood, hoje estréia Lua nova… Ou seja, nada mais providencial para terminar esta minha semana vampiresca, do que este post da nossa querida Violet, gótica por natureza. O texto fala de um ponto sempre insinuado, mas só muito recentemente explicitado nas telas do cinema, a ambígua sensualidade e sexualidade dos vampiros. Neste caso, ela fala especificamente das vampiras e suas várias representações ao longo da sétima arte. Sem dúvida, uma aula de vampirismo e sensualidade.

Carmilla, de LeFanu, a grande inspiradora

Carmilla é uma obra do escritor irlandês Sheridan LeFanu. Esta obra inspirou muitos diretores de cinema (especialmente entre os anos 30 e 70 do século passado) na representação de histórias de vampiras apavorantes, ousadas e atraentes. O livro do LeFanu relata a paixão entre a vampira Carmilla e a humana Laura, que ficará vencida pela matança da primeira: os eventos se colocam na mansão stiriana, propriedade do pai da Laura. A paixão lésbica entre as duas jovens mulheres nasce também em resposta ao cenário heteronormativo e muito antigo no qual vivem e atuam (a Stiria foi a região preferida pelos generais asburgicos retirados). A morte da vampira implica a vitória do masculino, do heteronormativo e da ordem social sufocante, sobre o feminino, o lésbico e a paixão imprevisível.

Belíssimo ensaio fotográfico de Andy Julia baseado na obra Carmilla, clique na imagem para ver o ensaio completo.
Belíssimo ensaio fotográfico de Andy Julia baseado na obra Carmilla, clique na imagem para ver o ensaio completo.

O primeiro filme vagamente inspirado pela história de Carmilla foi Vampyr, do diretor dinamarquês Carl Dreyer (1932). Nesse filme, o lesbianismo fica representado pelo recuo de sangue atuado pela velha megera Marguerite Chopin, sobre as duas jovens filhas de um castelão (Léone e Gisele). A intervenção salvadora masculina (na pessoa do jovem e deselegante viajante David Gray) esta vez resolve somente meio problema, porque o assassinato da velha ralhadora salva a Gisele, mas não a Léone, que acaba suicidando-se: os laços que atam ela à Marguerite Chopin são demasiado fortes, para ficar superados unicamente pela morte corporal da última.

Em Et mourir de plaisir – Blood and Roses, do diretor francês Roger Vadim (1960), Carmilla vive atormentada, o homem que ama, seu primo Leopoldo, está por casar-se com Georgia. O seu acontecimento incestuoso lhe faz reviver os dores, de dois séculos antes, da sua progenitora Millarca, morta um dia antes do casamento com o primo Ludwig. A paixão entre Carmilla e Georgia se desenvolve numa cena de tirar a respiração, na qual as duas ficam capturadas numa estufa para plantas, pela repentina chegada de um temporal. Uma Carmilla com o cabelo molhado e o rosto marcado de  chuva seduz a encantandora Georgia, com o objetivo de substitui-la no casamento com Leopoldo.

O assunto da carnalidade lésbica, em contraposição ao grande amor heterossexual, é um elemento constante do cinema sobre as vampiras, e corresponde hoje também a uma fantasia masculina muito comum. A esterilidade (passada) das relações lésbicas assegurava também os espectadores sobre a descontinuidade da dinastia vampirica (hoje com a fecundação assistida a coisa ficaria percebida de maneira bem  diferente).

La cripta e l’incubo do diretor italiano Camillo Mastrocinque (1964) tem duas fundamentais novidades. A paixão entre a humana Laura e a vampira Ljuba acontece e é bem sucedida (apesar da morte final da vampira, como nos outros filmes). A segunda novidade é a sensualidade escura, atribuida pela primeira vez ao ser humano, e não à vampira (elemento refletido na inversão da cor dos cabelos: a vampira de LeFanu é morena, a de Mastrocinque tem cabelos castanho claros. A humana do LeFanu é loura, a de Mastrocinque é muito morena).

Clássicos do vampirismo lésbico no cinema

Na trilogia vampirica da falida produtora de cinema inglesa Hammer (“The Vampires Lovers” de Roy Ward Baker – 1970, “Lust for a Vampire” de Jimmy Sangster – 1971, e “Twins of Evil” de John Hough – 1972) tenho que ressaltar as excelentes interpretaçoes da Ingrid Pitt (a Carmilla em “The Vampire Lovers”) e da Yutte Stensgaard (a Carmilla em “Lust for a Vampire”).

  • A Carmilla interpretada pela Ingrid Pitt fica quase agradável e, a pesar de seduzir as garotas com o único objetivo de obter o sangue, parece quer precisar a elas uma educação sexual e sentimental, antes de morde-las.
  • A provocativa Carmilla da Yutte Stensgaard quando atraida por alguma colega do instituto,  se entretém de forma carnal com elas antes de matá-las, entretanto, fica subjugada pelo amor heterossexual do seu profesor Richard Lestrange (primeiro caso de uma vampira que tolera de forma totalmente passiva a paixão de um ser humano).

O lesbianismo vampírico no cinema espanhol

O cinema espanhol no começo dos anos 70 doa dois títulos relevantes à tematica das vampiras. Em “Vampyros Lesbos[bb]” do diretor Jess Franco (1971), a minha querida e desafortunadisima Soledad Miranda (morta aos 27 anos, poucos meses depois do fim da gravação desse filme) interpreta uma condessa Carody que tem um erotismo melancólico cativante, irresistívelmente atraida pela humana Linda (noiva com um homem) de tal maneira que, no jogo da transmutação vampirica, pela primeira vez é a vampira que fica totalmente subordinada as açoes de um ser humano. O gênero humano triunfa outra vez, esta vez por causa de uma mulher, a mesma Linda, que mata a Condessa Carody deixando de lado seus sentimentos por ela, para não tornar-se como ela.

Em “La novia ensagrentada” de Vicente Aranda (1972), a jovem esposa Susan se revolta à brutalidade machista do marido, para confiar totalmente em Carmilla. Durante o filme encontramos também uma relação lésbica-vampirica de três, incluindo a empregada Carol. O marido de Susan mata as três fêmeas, numa leitura ideológicamente feminista e históriograficamente machista do erotismo.

A fragilidade “humana” de uma vampira diante do amor

Enfim, no britânico “The Hunger” do diretor Tony Scott (1983), a imortal Miriam, angustiada pela decadência física do parceiro John, seduz e morde a doutora Sarah Roberts, a qual prefere suicidar-se, que capitular diante o fascinio da vampira. Essa autonomia, esta forte escolha da humana provoca uma crise na vampira, crise que acelera o processo do seu envelhecimento até a morte.

Nesse caso, a paixão lésbica outorga uma maior independência da personalidade de Sarah nas suas relaçoes com os homens, e, ao mesmo tempo, faz descobrir o lado frágil da vampira, até aquele dia absolutamente firme e inflexível nas relaçoes com o parceiro e os seus escravos varões.

A sexualidade vampirica de orientação lésbica o bissexual fica representada em outros títulos, todavia sem que chegem a dar-lhe uma força simbólica e material, e uma cume intelectual, como as películas sobrecitadas.

Intervenção da B.

Em minhas buscas sobre o texto, encontrei um link que talvez seja bastante interessante: Top 10 Filmes Lésbicos: Vampiras. Sem dúvida, para os fãs do gênero, deve ter algo mais a acrescentar.

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Violet vive na devota Italia e tem características fisicas tipicamente etruscas. Oscila eternamente entre amor e vampirismo… mas entretanto escreve.