Uma leitora de 28 anos que recentemente saiu de um casamento pede ajuda à B (euzinha) e ao Admin Secreto. Evangélica, casou virgem, tudo dentro dos conformes, com um homem mais velho. Tentou levar o casamento o quanto pôde, mas retomando a vida de solteira, percebeu o quão pouco sabia do sexo e da sua enorme curiosidade. O resultado, bem… Eu e o Admin, baseados em nossas experiências com religião e sexo, demos nosso pitaco.
O post está grande, por isso separamos em dois. A minha parte foi publicada ontem. A parte do Admin está publicado abaixo. Vale a pena ler ambas e refletir. Afinal, nesta coluna o grande barato é saber o que Ela Disse e o que Ele Disse…
Relembrando a história de nossa leitora:
Olá,
moro no RJ e foi maravilhoso poder descobrir esse blog. Ainda não cheguei aos 30, mas acabo de sair de uma casamento.
Casei cedo, virgem, com um homem mais velho que eu (+ de 10 anos). Apesar disso não ser uma regra para o fracasso, infelizmente no meu caso foi. Logo recém casada já havia me arrependido, mas tentei que desse certo até pouco tempo atrás, depois disso desisti e terminamos vivendo como amigos e sem sexo.
Nestes anos em que estive casada percebi o quão pouco sabia sobre sexo, por crescer numa igreja evangélica e não conversar sobre este assunto com ninguém.
Voltei a sair com minhas amigas solteiras (para a noite) e conversamos abertamente sobre nossos fetiches e preferências. No inÃcio me sentia mal por querer experimentar sexo casual com desconhecidos, agora estou começando a descobrir do que eu gosto e não ter vergonha disso.
Duas das minhas fantasias, se posso dizer assim, é fazer menage a trois com dois homens (MFM). Li a respeito, mas ainda sei muito pouco, não sei se é melhor fazer com 2 desconhecidos ou não, e se existe algum site, boate, casa , que reúna pessoas que tenham esta mesma fantasia.
A outra é de ser dominada, mas ainda sei mto pouco, vi um documentário ano passado e me deixou louca, depois disso li dois livros (ficção) sobre o tema, mas ainda naum sei ao certo como, onde fazer, como posso achar o homem certo para isso.
Vcs poderiam me ajudar?
Ele disse: A Tirania
Olá, T.
Vou opinar um pouco menos sobre o lado sexual em si, que a B explorou e opinou com propriedade, mas sim sobre uma questão extra sexual que influiu direto no seu conflito e que aparentemente foi um padrão em sua vida: a tirania. Provavelmente, serei prolixo e hermético, pois nesta segunda edição do Ela Disse / Ele disse, você me traz mais uma questão que apresenta semelhanças com experiências importantes minhas.
Devo dizer que sou filho de pais separados (aos meus 6 anos), frequentei uma igreja evangélica por alguns anos por influência de minha mãe e tive pouca liberdade para falar de sexo na adolescência. Entretanto, desde muito cedo me rebelei contra a tirania. Paguei um preço e tenho alguns arrependimentos, mas no geral isso foi bom para mim: lutar contra a tirania.
A esta hora, você deve estar se perguntando: “PeraÃ, Admin. Tirania? Não está exagerando não?”
Respondo: não. Só sendo um pouco dramático. 🙂

A tirania é um forma de poder. Hoje tem conotação negativa, mas originalmente não era bom ou mal. É apenas uma situação excepcional, onde um pessoa, por conta de sua influência ou posição, passava a exercer um cargo de liderança. E é mais neste sentido que uso aqui: de um grupo ou indivÃduo exercer poder sobre certos aspectos da vida de outro. Nos permitimos ser tiranizados quando damos a responsabilidade e a liberdade em nossa vida, ou em aspectos desta, a outro.
Vejamos um resumo, bem simples, da situação segundo seus dois e-mails:
Uma adolescente , com pais em crise conjugal, passa a ir a igreja evangélica com sua mãe, se converte, passa a adolescência sem discutir sexo. Casa-se cedo e vive anos casada com um homem mais velho que ou não se preocupa com o prazer da esposa, ou não tem referência e/ou conhecimento sobre prazer feminino. Com o tempo, começa a sentir-se oprimida e resolve romper com o padrão de sua vidae passa a fantasiar com atividades sexuais fora do padrão a que até então tinha conhecido, especialmente submissão e sexo a 3 com desconhecidos.
Agora, vamos complicar um pouco esta estória e fazer como dizia Descartes: “Decomponha um problema em quantas partes forem necessárias para resolvê-lo”.
Uma adolescente…
A adolescência é época em que os hormônios estão a pleno vapor e nosso sistema de valores está se formando. Nosso corpo e cabeça sofrem transformações. A curiosidade pelo sexo é grande, assim como uma certa rebeldia, mesmo que pacÃfica e silenciosa.
… com pais em crise conjugal
Pais são os responsáveis pelas referências dos filhos, responsáveis por alimentá-los, por criá-los, por ensiná-los, educá-los, pagar as contas e dizer o que pode e o que não pode. Se estamos simpáticos a eles, são nossos tutores, se não, dizemos que são tiranos, pois são eles que controlam nossas vidas
Crise conjugal é uma situação onde normalmente TUDO é opressivo e difÃcil. E se tem algo que os mitos gregos, Shakespeare, Freud , Jung, o Discovery Channel e até a BÃblia deixaram claro é que TUDO gira em torno do erótico (que entre outras coisas, envolve SEXO): ou vem do erotismo, ou vai para o erotismo, ou envolve erotismo, mesmo que subliminarmente. Logo, se TUDO é opressivo e envolve erotismo, erotismo passa a ser opressivo.
Se seus pais já eram dominantes na sua vida, certamente a crise deles passou a dominar a sua vida também.
… passa a ir a igreja evangélica com sua mãe, se converte.
Hoje não tenho religião, sigo preceitos do TaoÃsmo e tenho simpatia pelo Zen Budismo, mas como já fui evangélico e católico (tradicional e da renovação carismática), sei com muita propriedade que as religiões cristãs, de uma forma geral, valorizam muito a culpa. E as igrejas evangélicas, de uma forma geral, fazem um apelo grande e constante à disciplina e à vigilância de regras rÃgidas de comportamento. E entre estas regras, o compromisso com sexo apenas depois do casamento.
Novamente, temos aspectos de sua vida dominados por outros, e portanto, a tirania. E neste caso, vem junto a tensão sexual.
Lembro de um acontecimento que presenciei, por volta dos 11 anos, na igreja que eu frequentava, dirigida por um pastor bem tolerante até.
Foi meio de passagem, mas eu precisava falar com o pastor e ele estava conversando meio separado com um rapaz de pouco mais de 18 anos, consternado, que havia confessado ter transado com a namorada. Lembro que o pastor não o condenou pelo sexo, disse que o entendia e sabia pelo que ele estava passando, que ele não tinha pecado no ato em si, mas sim, que falhou com a igreja ao assumir um compromisso com sua comunidade e não ter cumprido. O instruiu a, durante o culto, se dirigir ao microfone e dizer que falhou, sem entrar em detalhes.
Achei ótima a atitude do pastor, e só vim entender completamente o valor das ações dele anos depois. Delineou a diferença entre religiosidade (um sistema de crenças pessoais ) e religião (uma organização social), e ao invés de entrar numa briga perdida contra os hormônios e a natureza de seus jovens, mostrou ao rapaz o valor da confiança. Do rapaz no pastor, e da comunidade da igreja em seus integrantes.
O rapaz foi sortudo, pois nosso pastor era bem fora da curva. Mas no seu caso, creio que este aspecto social e organizacional, e opressivo, da religião falou mais alto.
E como sua religiosidade ainda estava diretamente ligada à religião, você se permitiu tiranizar mais uma vez.
… passa a adolescência sem discutir sexo…
Essa é uma das maiores brigas que temos no AVS. Levar a discussão sobre sexualidade, saúde e erotismo a adolescentes, e ajudá-los. Infelizmente, em razão de nossas leis, não podemos fazer isso ou podemos ser enquadrados como criminosos.
Mas pior que isso, estamos sob a tirania de mentes tacanhas, de regras sociais mais tacanhas ainda e hipócritas, e faz com que, em um paÃs que se mostra ao mesmo tempo sensual e puritano, as discussões sobre sexo, ou mesmo alguém admitir que discute sexo, sejam sempre feitas em voz baixa, e SE forem feitas. Faz com que professores sejam censurados se discutem o assunto com suas classes, sites como o AVS tenham dificuldade em serem levados a sério por anunciantes que não sejam estritamente ligados a sexo, pais sejam mal-vistose se falam sobre sexo, e filhos sintam-se ridicularizados ou amedrontados em falar sobre isso.
É a tirania da ignorância e do medo…
… Casa-se cedo e vive anos casada com um homem mais velho que ou não se preocupa com o prazer da esposa, ou não tem referência e/ou conhecimento sobre prazer feminino. …
Isto aqui me parece ao mesmo tempo uma busca pela liberdade, assim como substituição do pai. Freud clássico: o conflito entre o desejo da liberdade sexual/familiar e ainda manter-se submetida (e esta palavra é adequadÃssima aqui) à vários dogmas religiosos e à famÃlia.
Depois, mesmo com uma energia sexual constante e anseios naturais de qualquer mulher, submete-se por anos a fio a uma vida conjugal incompleta, e aqui começa a repetir o padrão familiar. Acho que aqui você deve ter sentido um nó em sua cabeça: essa energia sexual toda reprimida, todas as regras impostas por tanto tempo, mais o histórico familiar complicado ligando sexo à opressão… caramba…
… Com o tempo, começa a sentir-se oprimida e resolve romper com o padrão de sua vida, passa a fantasiar com atividades sexuais fora do padrão a que até então tinha conhecido, especialmente submissão e sexo a 3 com desconhecidos.
Opa! Parece que aqui finalmente está tentando romper com aquilo que a tiranizou por tanto tempo e, finalmente, usufruir de liberdade e mudar sua vida.
Pois, faça-o. Mude e assuma sua vida como sua.
Mas lembre-se que liberdade rima com responsabilidade.Se agora você é dona de sua liberdade, é também de sua responsabilidade. Faça o que te dá na telha, mas não se apresse e NÃO SE SUBMETA ao desejo.
Não se tiranize pelo desejo de tirar o atraso. Como disse a B, faça com quem se sente à vontade e confia. Tem muita gente legal, mas tem gente ruim no mundo também. Seja na igreja (é, tem), na escola, na faculdade, no A Vida Secreta (aqui a gente tenta sempre barrar esta galera do mal), no Orkut, na balada, no clube BDSM, na casa de swing. Gente boa e gente ruim tem em todo lugar.
E seja sincera consigo:
Você está mudando, mas no fundo, você é a sua história e continua mesma.
Por um lado, talvez você não se identificava totalmente com as pessoas à sua volta, e o sexo com desconhecidos reflita isso.
Por outro, você sempre foi dominada, e a fantasia da dominação também reflete isso.
Vivà coisas parecidas. Saà de uma vida cercada de regras para fazer e acontecer em várias coisas em relação à sexo. Não tenho arrependimentos, mas tem um monte de coisa que hoje sei que não era tão assim, assim como tem coisas que foram muito legais. Sexo é bom, algumas eu gostaria de repetir, outras não.
No fim, o que conta é o equilÃbrio e respeitar o que você é, o que foi e o que deseja ser. E principalmente, não abra mão de sua liberdade e responsabilidade.
Mesmo que seja a liberdade de escolher ser tiranizada.
‘braços
Admin Secreto, ouvindo Welcome to Paradise (versão estúdio e ao vivo), Religion (versão estúdio e ao vivo) e Body to Body (versão ao vivo de 1998 e de 2005), do Front 242, que aliás, tem um álbum chamado Tyranny For >You<.
PS: A parte 1 deste Ela Disse / Ele Disse foi publicada ontem. Confira.