Por mais cara de pau que a pessoa seja, sempre rola um constrangimento ao entrar na locadora e pedir indicação para um filminho pervertido, não é mesmo?! Ok, sei que sempre tem um safado que não está nem aà para o que vão pensar, mas… Confesso, mesmo eu me sinto pouco à vontade com isso.
Dia desses estava pensando em escrever um post sobre este assunto e fiz uma busca na net. E não é que encontrei um texto divertidÃssimo e perfeito sobre o assunto? Ele segue abaixo e vale ser lido completo (apesar de enorme) por todos os aspectos possÃveis. Vale como informação e também para dar boas risadas com as saÃdas geniais do autor do post. Muito bom.
Filmes com teor Erótico para você pedir na Locadora e ainda sair com fama de cult
Por Inaldo Eleutério / Postagem original: Cinema com Rapadura
Enquanto houver indústria cultural e o chamado “cinema de arteâ€, sempre haverá discussão sobre a linha tênue daquilo do que é e do que não é pornografia. E essa dicotomia colocada, indústria cultural X “cinema de arteâ€, foi escolhida justamente por seus antagonismos. De um lado, a indústria cultural, baseada no moralismo norte-americano e no american way of life – doutrina em que toda potencialidade humana deve ser canalizada no único modo de viver considerado sadio: a procura por meios legais de consumir o que se é produzido em larga escala e ser feliz com isso – tem objetivos mercadológicos plenos e faz com que seus produtos abranjam, claro, o maior número de consumidores possÃveis. Com isso, tentam transformar as coisas que tocam (a cultura, no caso) em algo o máximo acessÃvel para todos. O alemão Theodor Adorno foi a pessoa que cunhou o termo “indústria cultural†ao perceber, na década de 50, o surgimento de grandes complexos e empresas cinematográficas que visavam suprir uma demanda crescente de consumidores para o ramo (não só de filmes, mas de música, dramaturgia e literatura).
Cinema alternativo
Do outro lado do ringue, está o sem sal “cinema de arteâ€. Como o nome pretensiosamente diz, este tipo de corrente foi nomeado como uma alternativa ao fenômeno descrito acima. São diretores, geralmente europeus, que têm como prioridade o conteúdo e o conceito daquilo ao qual trabalham. Conseqüentemente, a visão de tais diretores vêm de dentro para fora, contrariando a máxima de que a demanda do cliente tem sempre razão.
O esforço para divergir daquilo que a grande indústria ditava foi tanto que, por um momento, um fundamentalismo estético se abateu sobre tal corrente alternativa. O quanto mais a coisa fosse incompreensÃvel, melhor. Não havia, assim, uma base mÃnima de senso e respeito com quem visse a obra. A interpretação do filme torna-se por quase toda sua totalidade subjetiva e quem não entendesse era porque não tinha sensibilidade ou já estava dominado pelo verme do “cinemãoâ€. Até que a banalização do termo ocorre: hoje em dia é normal considerar “cinema de arte†todo filme que não entra no circuito comercial ou, mais drasticamente, não foi produzido nos EUA.
Mas aà o impasse já estava formado, pois o cinema de arte conquistara assim, o direito conceitual sobre o que se produzir. Observando ainda que tais conceitos iam de encontro com a abordagem normalizada dos enormes estúdios de Hollywood, que se tornavam cada vez mais ricos com produções cada vez mais abrangentes. E o sexo estava no meio. Perdão, ainda está no meio desse impasse. Afinal, o cinema de arte também tem público. Por exemplo, Kubrick hoje é endeusado por ter abdicado de uma carreira estável no paraÃso californiano da sétima arte para experimentar novas linguagens no seu exÃlio na Inglaterra.
Claro que na atualidade essa tal linha que separa o “pornográfico daquilo que não é†está na sua medida, mais grossa, equivalendo a um fio de cabelo. E olha que o sexo, pelo menos cinematograficamente falando, sempre foi um tabu – note que a safra de “besteróis americanos†não se enquadra nessa categoria de polêmica porque aborda de modo satÃrico aquilo que leva os jovens de uma “normal†cultural ocidental à identificação.
E é por isso que agora você tem respaldo suficiente para se divertir com filmes de cenas fortes e ainda passar na cara daqueles que vêem você colocando o filme sobre o balcão da locadora uma imagem de intelectual ou, no mÃnimo, de entendedor da coisa. No que for possÃvel, estamos aqui para ajudar.
Abaixo, algumas sugestões de filmes e estilos, o verdadeiro motivo para pegá-los e a desculpa para dar ao atendente para não passar vergonha.
:: PÕE NO BALCÃO: Último Tango em Paris (1972)

O VERDADEIRO MOTIVO: A clássica cena de sexo anal entre Marlon Brando e Maria Schider onde ele, na falta de vaselina, lubrifica o local com manteiga e a cena em que ele a esfrega enquanto ela toma banho.
O QUE COMENTAR COM O ATENDENTE: “Adoro essa visão intimista retratada na melancolia do personagem Paul com a morte de sua mulher. Fora que Brando (ah, chame os atores e diretores pelo sobrenome nome para demonstrar intimidade por conhecimento de causa) vai sutilmente demonstrar a forte carga afetiva de dominação que há num relacionamento entre uma moça e um homem mais velho. Grande figuração para o complexo de Édipo freudiano nos tempos modernosâ€.
:: PÕE NO BALCÃO: O Império dos Sentidos (1976)

O VERDADEIRO MOTIVO: Quantos filmes com sexo explÃcito ambientado no Japão feudalista você viu? Pois é.
O QUE COMENTAR COM O ATENDENTE: “O cinema japonês é conhecido por ser tradicionalista e recatado. Mas numa revolução temática, Oshima consegue elevar o sexo ao patamar dramático. Aproveitando já que estamos falando de Oshima, aqui tem Tabu?â€
:: PÕE NO BALCÃO: CalÃgula (1980)

O VERDADEIRO MOTIVO: Se não me engano 90% do casting foi composto por modelos, atrizes e atores da Penthouse. Preciso dizer mais?
O QUE COMENTAR COM O ATENDENTE: “Realista degradação de um império pelas mãos psicóticas de um louco, que não tinha outro propósito senão o de satisfazer suas vontades pessoais dando vazão � sua Ãndole egoÃsta e cruel. Depois de “Laranja Mecânica†de Kubrick (sempre é bom, após dizer o filme, ressaltar o diretor, pois vai parecer que você sabe contextualizar espaço e tempo de produção) foi a última boa atuação de Malcolm McDowell antes de ele ser esquecido em produções de 3ªâ€.
:: PÕE NO BALCÃO: Filmes do Larry Clark como “Kidsâ€, “Bullit†e “Ken Parkâ€

O VERDADEIRO MOTIVO: Cenas com altos teores de felação semi-explÃcitas, fetichismo e orgias.
O QUE COMENTAR COM O ATENDENTE: “Clark sempre manifesta em seus filmes esse espÃrito crÃtico na crueza com que expõe a situação de toda uma geração perdida e sem perspectiva. Frutos impensados do grande sonho americano. Fora que ele lança no mercado vários atores e atrizes jovens que se tornam, geralmente, promessas de sucesso (o que não é verdade, mas é bonito de se falar e dá uma boa impressão)â€.
:: PÕE NO BALCÃO: Baise-moi (2000)

O VERDADEIRO MOTIVO: Aà sim a coisa dá pé. Tem cena de estupro e tudo. Tudo bem que a cena é super má interpretada (aliás, como a grande maioria do filme), com o estuprador fazendo cara de ator de teste de fidelidade, mas o que vale é a intenção.
O QUE COMENTAR COM O ATENDENTE: “Absurdo a classificação desse filme ter sido “X†(é X mesmo, a mais alta categoria restritiva) na França! Godard é que teve razão em prestigiar o lançamento dessa obra, que é referência no que diz respeito à atitude feminina de decisão e de tomar seu caminho pelas próprias mãos!â€
:: PÕE NO BALCÃO: Je vous salue, Marie! (1985)

O VERDADEIRO MOTIVO: As tomadas altamente convenientes que Godard realiza na belÃssima atriz principal que faz o papel de Maria.
O QUE COMENTAR COM O ATENDENTE: “Godard transpõe para a modernidade a situação bÃblica do nascimento do Salvador, enfocando o dilema vivido pela garota que vê sua vida transformada por essa operação do ‘EspÃrito Santo’. Tem que ver como o arcanjo Gabriel é personalizado por um doidão pé-rapado totalmente pornográfico. E também o modo ao qual José, seu namorado, vai encarar com desconfiança esse fato inusitado da gravidezâ€.
:: PÕE NO BALCÃO: Os Sonhadores (2003)

O VERDADEIRO MOTIVO: Só há um: Eva Green. Eva Green como irmãzinha virgem e safadinha, Eva Green recebendo uma provada por baixo do lençol, Eva Green sem nada etc.
O QUE COMENTAR COM O ATENDENTE: “Bertolucci ataca outra vez (sim, Último Tango também é dele) retratando aqui um tema polêmico, mas que certamente ultrapassa, nesse caso em especÃfico, os domÃnios da simples moralização comum: o incesto. E ainda coloca como pano de fundo a revolução de Maio de 68 em Paris regado a uma caracterÃstica, e por isso ótima, trilha sonoraâ€.
:: PÕE NO BALCÃO: Pornochanchadas Brasileiras

O VERDADEIRO MOTIVO: A grande maioria dessas clássicas atrizes globais que hoje posam de boas-moças podem ser encontradas realmente posando de maneiras bem mais produtivas e reveladoras. Xuxa, claro, não escapa.
O QUE COMENTAR COM O ATENDENTE: “Depois de ‘Terra em Transe’, o cinema brasileiro caiu numa fase obscura de experimentalismo (note o uso da metonÃmia ao trocar sacanagem por experimentalização). No entanto, vale a pena peneirar algumas pérolas desse perÃodo, fundamental para a linha dinâmica e técnica as quais o circuito nacional se encontra hojeâ€.
:: PÕE NO BALCÃO: Uma Adolescente de Verdade (1975)

O VERDADEIRO MOTIVO: A vida de uma garota mostrada da forma menos ortodoxa possÃvel. Ela se utiliza de todos os meio possÃveis para ganhar o amor de um homem que trabalha na marcenaria. Destaque para os sonhos dela com o mancebo (conteúdo quase escatológico).
O QUE COMENTAR COM O ATENDENTE: “A diretora Catherine Breillat, nesse filme em especial, retrata de uma maneira deveras nostálgica e meticulosa a essência dos anseios de uma jovem na década de 60. O final surpreendente sempre me faz revisar como a narrativa pode influenciar na estética da obraâ€.
:: PÕE NO BALCÃO: Desenhos hentai como “La Blue girlâ€, “Black Bibleâ€, etc…

O VERDADEIRO MOTIVO: Os japoneses se mostram realmente bons aproveitadores dessa linguagem gráfica. Para quem gosta, acontece de tudo com o adicional da não rara intervenção do mundo sobrenatural.
O QUE COMENTAR COM O ATENDENTE: “Tenho que assistir para aprimorar meus traços no curso de desenho de animes. Falando nisso, já citei que, fora inglês e francês, já estou terminando meu curso de japonês? Animes normais não têm a liberdade de enredo que é conferida aos hentais, pois esses últimos podem enriquecer a trama psicologicamente, já que não há uma restrição em relação à narrativaâ€.
Se vocês ficarem um pouco mais atentos, irão perceber que as produções Ãtalo-francesas dominam. Mas não significa, obviamente, que o cinema deles se resuma somente a isso. Se bem que, se fosse, não seria nada mau.VIVA LA FRANCE!
Este texto é de autoria de Inaldo Eleutério e foi originalmente postado no site Cinema com Rapadura
