[foto ilustrativa do post por Nathaniel Perales]
Creio que venho de uma famÃlia de padrões atÃpicos, quando o assunto é a sexualidade. Todos tem aquele tio pervertido, que fala safadezas escatológicas em festas. Eu não só tive os tios safados, quanto um pai libertário (libertino?) e avós que tinham tiradas sensacionais relacionadas ao tema. Ah, sem contar a porno-mamã, é claro!
Já devo ter comentado por aqui que meu pai morreu quando eu tinha 9 anos apenas, e a única herança além da casa e a linha telefônica, que na época ainda era um bem, foi uma estante cheia de livros e uma coleção de música clássica em vinil.
Sei que este papo está parecendo sério… No entanto,  não é sério não. Logo a safadeza entra em cena.
Os livros, para uma menina tÃmida, foram os primeiros amigos safados. Além das enciclopédias sobre sexualidade (que assustavam muito mais que ensinavam), ler um erotismo delicado e implÃcito em livros como O Amante de Lady Chaterley de D. H. Lawrence, Madame Bovary de Gustav Flaubert ou  O Primo BasÃlio de Eça de Queiroz  foram tão importantes quanto o escracho do Decamerão (ou Decameron) de Boccaccio na formação safadinha dessa moça que escreve. Detalhe, este último, dica da minha avó paterna.
– Minha filha, você já leu Decamerão?
– Ai, vó… Muito grosso esse livro, canso antes de ler, além do que… Já tentei ler, mas aquelas rimas me enrolam.
– Hummm… Sei não… Se eu fosse você, leria! Vai gostar…  – e nisso se aproximou falando baixinho de um jeito safado –  Só putaria!
É claro que tentei ler mais uma vez, e mais uma vez não consegui. Mais tarde, tive acesso à versão para o cinema Decameron do pervertido Pier Paolo Pasolini. Ritmo ágil, repleto de espertezas e safadezas, me fartei. Gostei, mas me contentei e mais uma vez não li.
Ontem, a versão global de uma das jornadas da obra me apeteceu novamente. Amanheci com Decamerão em mãos, tão grande e grosso quanto outrora e, não sei exatamente porque, dessa vez devorei muitas páginas. Não duvido que dessa vez, devore Boccaccio com gula… risos.
Acho maravilhosa a iniciativa da Rede Globo em popularizar obras clássicas da literatura tidas como chatas e/ou difÃceis. Foi louvável o que fizeram com Capitu e agora, mais uma vez parabenizo-os com o Decamerão, tomara que vire série, pois ainda tem muita história para contar.
Segue abaixo uma pequena amostra safadinha do que foi, para os que não viram assistir e para os que já assistiram rever.  Se der problemas no vÃdeo, pode clicar aqui.Â