Dando continuidade à nossa série de entrevistas (que iniciamos com Diana of Tripoli), convidamos o fotógrafo Ricardo Motti para falar de sua relação com a fotografia e elementos eróticos ou nudez em seu trabalho. Ricardo, sempre simpático e prestativo, não só aceitou participar como também nos honrou e autorizou a utilizar algumas de suas fotos no A Vida Secreta – são dele as fotos do casal que ilustram o topo do site, produzidas no curso Luz Marginal Procura Corpo Vago.
Acompanhem abaixo a entrevista e veja mais algumas fotos deste ex-advogado e futuro redator publicitário, que pode ser encontrado também no flickr: www.flickr.com/motti/
1) Por favor, se apresente e nos fale um pouco sobre sua relação com a fotografia. Se você sempre pensou em ser profissional ou se foi um hobby que foi ficando sério?
Xi, não sou profissional nem de longe. Na verdade eu era um advogado frustrado e precisava de um hobby. No começo de 2006 fiz uma viagem pra Inglaterra e fiquei revoltado com minhas fotos, que ficaram péssimas. Daà comecei a ler sobre fotografia na internet, aprendi uma técnica ou outra e, a partir daÃ, o hobby foi ficando sério… muito sério.
No fim de 2006, já estava seriamente considerando largar a advocacia e trabalhar com fotojornalismo. Estava fazendo pautas para uma agência em qualquer hora que eu tinha livre. Comecei a fazer também fotos de arquitetura para uma amiga minha. Mas depois de pouco tempo fiquei de saco cheio de tudo e praticamente abandonei as fotos. Agora larguei o Direito, estou estudando redação publicitária e estou voltando a gostar de fotos (mas trabalhar com isso, nem pensar!).
2) No seu Flickr existem diversos tipos de fotos, algumas mais jornalÃsticas, outras mais artÃsticas e tem as eróticas. Qual a sua relação ou influência do erotismo com sua arte e expressão? O que te atrai em fazer fotos de nú ou usar elementos eróticos?
É uma relação difÃcil, por umas coisas da minha personalidade. Primeiro, eu morro de medo de ser pretensioso. Segundo, eu morro de medo de ser inconveniente. É uma combinação crÃtica que praticamente elimina quaisquer elementos eróticos nas minhas fotos.
Vou dar um exemplo: nessas fotos que eu fiz para o curso do Gal Oppido, tinha várias oportunidades para fazer fotos beirando a pornografia. Mas, se você olhar no flickr, vai ver que praticamente não tem nem nu frontal. Na hora de fazer as fotos, eu já praticamente eliminei um enquadramento mais “ousado”… Na edição então, praticamente exclui. É difÃcil explicar, mas tem também o fato de eu saber que amigos, famÃlia etc costumavam ver o meu flickr de vez em quando, e eu não queria que alguém tomasse um susto na hora de abrir o flickr, ainda mais se o chefe estivesse atrás… 🙂
Uma vez tirei umas fotos de uma menina com que eu estava saindo. Nada demais, nem muito elaborado, mas tinha uma ou outra foto em que dava pra perceber que ela estava de calcinha. Daà fiquei até com medo de deixar no computador, com o risco de alguém acessar e vazarem essas fotos. RidÃculo.
Fora essas travas pessoais, tem um medo também de ser apelativo. Porque as minhas fotos mais eróticas no flickr tem 1500 visualizações e umas que eu acho legais têm 28… 🙂
Ou seja, eu acho legal pra caramba e adoraria fazer mais. É bonito e tem um impacto imediato. Mas tenho dificuldade de arrumar oportunidade e, depois disso, coragem pra trabalhar as fotos. Pra piorar, não gosto de fazer foto de estúdio, acho um saco ficar arrumando luz e tal. Gosto de coisas espontâneas. Se/quando eu conseguir dar um jeito de resolver tudo isso, vou adorar fazer mais coisas eróticas.
3) Mais e mais, sexo e erotismo é usado no marketing e publicidade. Você acha que só estão qeurendo vender, e o sexo vende, ou denota uma mudança de postura da sociedade em relação sexo? Em especial à brasileira, que é tão ambÃgua, sensual mas ao mesmo tempo puritana?
Tem um pouco de cada, mas aposto fortemente nessa mudança de postura da sociedade. Bom, eu tenho 28 anos e percebo uma mudança radical de uns dez anos pra cá. Essa geração imediatamente mais nova que a minha, que hoje tem uns 22-23, lida com sexo de uma maneira bem diferente, mais solta. E, pelo que consta, a geração mais nova é ainda mais solta.
Lembro que, quando eu estava na faculdade e tinha uns 20 anos, nosso objetivo na balada era ver duas meninas se beijando, e isso NUNCA acontecia. Já hoje em dia…
Por outro lado, em alguns pontos tem uma paranóia muito maior. Outro dia vi o comercial do Meu Primeiro Valisére. Aparecem os peitos da menina que fez o comercial, que devia ter uns 14 anos. Imagina o escândalo se fosse hoje.
4) O que define Arte Erótica e Pornografia pura? Quais os elementos que definem isso e como você os encara ou gosta?
Para mim, a divisão era clara. Pornografia tinha o intuito de excitar, coisa de instinto mesmo, e Arte Erótica tinha uma preocupação estética, de provocar uma sensação intelectual. E eu gosto dos dois lados, já vamos deixar claro.
Mas daà assisti uma aula da Magnólia Costa no MAM, em que ela estava falando de uns quadros renascentistas que tinham dimensões pequenas e explicou: “por que vocês acham que esses quadros são pequenos? Porque é pra ficar no quarto do cara e não no salão de jantar! É só ver: mulher pelada!”. Daà me confundiu.
De qualquer forma, acho que não tem motivo pra existir uma discussão grande sobre isso, especialmente do ponto de vista artÃstico. Que diferença faz? Eu só vejo a importância disso numa discussão jurÃdica, digamos, na hora de limitar o acesso a um filme ou exposição — é erótico ou pornográfico? Mas como sou ex-advogado, quero passar longe dessa conversa. 🙂
5) A maior parte das pessoas tem uma vida pública, um lado A, e uma vida secreta, um lado B. Geralmente o lado B está ligado a questões eróticas e a maioria das pessoas o reprime ou esconde da sociedade, da famÃlia ou mesmo de si. Porém; cada vez mais usam a internet para extravasar ou mostrar esse lado. Como você encara isso? E como você lida com o lado A e o lado B?
Com o lado A eu lido muito bem. Já com o B… acho que bem mal.
Na verdade eu acredito em certos padrões de comportamento que provavelmente não combinam tanto com esse lado B, o que cria um belo conflito. No lado A, eu acho que mulheres devem ser tratadas com muita atenção e respeito e tal. E nem sempre isso é bom ou conveniente no lado B. É complicado.
Mas o fato de existir a internet como forma de extravasar esse lado B eu acho ótimo. Claramente não é a situação ideal, mas é, no mÃnimo, divertido.
6) Que outros artistas, que usam elementos eróticos, você gosta ou sofre influência?
Oba, uma pergunta fácil.
Eu gosto muito do Edward Hopper. Apesar de não ser propriamente erótico (ou nem vagamente erótico), ele usa uma atmosfera solitária que me lembra intimidade e daà para erotismo é um passo. E também o Man Ray, mas pela violência e extremismo das coisas que ele faz, que acaba tendo um tom erótico, acho. TaÃ, o Hopper é o Lado A, e o Man Ray é o Lado B, que tal?
No Brasil, preciso citar a Julia Moraes, que tem um trabalho muito corajoso (morro de inveja) e os caras da Cia. de Foto. Os flickrs deles são fantásticos.
A versão em inglês desta entrevista pode ser encontrada em Interview with Ricardo Motti, Photographer.