Meus Mestres na Vida

    Como hoje, 15/10 é Dia do Mestre, decidi reeditar este antigo post do Me and My Secret Life. Sei que este é um blog que trata de vidas secretas, mas atendendo ao pedido do Gustavo Gitti do Não 2 Não 1, resolvi aceitar o convite dele e falar dos meus Mestres na vida. Não sou tão erudita quanto o Gustavo e nem tão espiritualizada também. Percebi redigindo o texto que realmente temos muito dos nossos mestres em nós. E mais… Vi que por mais influência externa que tenhamos, é no seio da nossa família que aprendemos quem seremos para o resto das nossas vidas. Por motivos óbvios (este é o meu blog secreto) não colocarei fotos, mas fico feliz em de alguma forma homenagear meus mestres. Portanto, já no primeiro parágrafo quero sinalizar que este não é um post sobre sacanagem.

Meu Mestre de Música

Vai parecer brincadeira, mas meu mestre de música foi um cara que nunca tocou nenhum instrumento musical. No entanto, apreciava tanto a boa música que me influenciou e muito. O cara é o meu pai. Ou foi, meu pai morreu quando eu tinha nove anos. Agradeço muito a Deus ter bebido daquela fonte, de ver todos os domingos aquele sujeito genial, fingindo reger orquestras diante da vitrola. Um homem que nunca viajou além desse brasilzão, mas que viajava em suas coleções de grandes mestres. Que me apresentou Strauss (era quem eu mais gostava quando pequena), Chopin, Bethoven, Tchaikowsky, Mozart e tantos outros. O mais interessante é que além dessa paixão pelos clássicos, ele amava música brasileira. Quem foi criança na década de setenta deve lembrar-se do Projeto Minerva, na Radio Globo aos domingos, 10h da manhã. Era a hora que íamos à praia. Naqueles passeios eu conheci Chiquinha Gonzaga, Lamartine Babo (que ele se orgulhava em ter conhecido pessoalmente na época que veio morar no RJ), Francisco Alves, Ari Barroso, Marlene, Emilinha e tantos outros mestres, compositores ou intérpretes. Sem contar que em tempos de discoteca, final dos anos 70, o vi dar uma de John Travolta na festa de 15 anos da minha prima ao som de Bee Gees. Meses depois meu pai morreu. Meu ecletismo musical deve-se aos opostos extremos do gosto do meu pai. Graças a ele eu aprendi a ter prazer em amar e respeitar os clássicos, dar valor à raiz da nossa música popular e ainda sem nenhum pudor render-me ao novo, se o novo me diverte e encanta.

Minha Mestra de Relacionamento

Taí uma coisa que nunca aprendi. Relacionar-me bem com as pessoas. Talvez porque jamais tive um mestre, aquele modelo para servir de referência, sabe? Cresci sim repleta de expressões neurolinguísticas que acabaram me formando (ou deformando, sei lá). Sou de uma família simples e humilde, a pessoa que mais convivi na infância e adolescência foi a minha avó materna. Uma nordestina semi-analfabeta que o único grande sonho realizado foi ver de perto o relógio da Central do Brasil, a única escola que freqüentou foi a da vida e que dizia que o dia mais feliz dela seria o dia que morresse (curiosamente nunca vi semblante mais belo e sereno do que o dela no caixão). Era trágica e cômica. Chorava vendo filmes românticos e xingava vendo os vilões nas novelas. Quando penso em relacionamentos, penso nela. Porque de certa forma, algumas expressões ditam minhas relações até hoje, às vezes feliz, noutras infelizmente. “O muito aborrece e o pouco parece bem”, “Quem tem pena do miserável, fica no lugar dele”, “Quem faz de cachorro gente, fica com o rabo na mão”, “Na minha casa só os meus, e olhe lá…” Minha avó era uma mulher sofrida, mas extremamente divertida. Ressabiada, desconfiava de todos até que lhe provassem o contrário, ainda assim tinha uma expressão leve. Quase infantil. Casou três vezes, namorou outras tantas, ainda assim guardava a fama de Senhora mãe de família. “Ninguém precisa saber dos particulares”, ela dizia. Amava “os seus” e zelava por eles como uma leoa, sem nenhuma vergonha de não se importar com a fome na Etiópia. “Quem se importa com fome lá nas lonjura, é porque nunca viu um filho chorar com a barriga roncando…” Minha Mestra em relacionamentos me ensinou que devemos ser criteriosos ao escolher “os nossos”, mas uma vez eleitos fazer tudo por eles.

Minha Mestra Intelectual

Risos… Estou parecendo uma máquina do tempo, revisitando o meu passado, mas lá vou eu novamente mergulhar na infância para citar mais um de meus Mestres. Minha primeira professora de português e grande Mestra foi a Tia Ana Maria (estou morrendo de dó aqui por não lembrar o sobrenome dela). Professora de português da 4ª série. Estudei em um dos melhores colégios da minha região, colégio católico, mas com fama de moderninho. Na quarta série eles já implantavam a segmentação das matérias e dos professores. Coisa que em outras escolas só começava na 5ª série. Esta professora em especial era uma mulher muito séria, às vezes até mal-humorada, mas que eu achava ela inteligentíssima. Sempre tinha uma citação de algum autor interessante, incentivava-nos à leitura, à redação. Ela foi a primeira pessoa que falou da importância da leitura para um bom vocabulário. A primeira que me incentivou a comprar meu primeiro livro. Que podem até rir de mim, mas foi O Pequeno Príncipe de Antoinne de Saint-Exupéry. E isso aos nove anos de idade. De lá pra cá, fui enveredando no mundo da leitura. Nos livros aprendi muito do que não tive coragem de perguntar, do que não tinha acesso, do que morria de curiosidade. Aproveitei a maior herança que meu pai pôde me deixar, uma estante cheia de livros, e por muitos anos foram eles os meus melhores amigos e grande paixão. Paixão incentivada lá pela Tia Ana Maria, na 4ª série.

Meu Mestre Espiritual

Este é fácil. Foi o Padre Décio. Como disse antes, estudei dez anos em colégio de formação católica, adolescente comecei a freqüentar encontros de jovens organizados pela própria escola. Curiosamente, apesar de amar a escola e os encontros, eu detestava as missas. Não gostava daquele modelo estabelecido, chato. O Padre Décio era diferente de tudo e todos. Agitava seus encontros com violões, usava técnicas de teatro, animava… Isso em uma época que ainda não havia Renovação Carismática. Falava de Jesus Cristo como um quase hippie e grande Mestre revolucionário, São Francisco de Assis então era o máximo, virou meu ídolo depois daqueles encontros. Lembro que estes encontros aconteceram em meu último ano naquela escola, logo depois eu saí, faltava grana para minha mãe manter três filhos lá. Saindo do colégio, larguei a Igreja de vez, mas eventualmente sempre sabia do Padre. E qual não foi minha surpresa ao saber que anos depois, ele largou a batina, continuou como missionário, viajando o mundo pregando a palavra daquele Jesus gente boa e grande Mestre que encantava, mas não metia medo. Desde então, sempre que eu pensava em um símbolo espiritual bem real, lembrava dele. Um cara jovem, cheio de boas idéias e boa vontade de passá-las adiante. Lembro que uma frase dita por ele em um dos encontros marcou para sempre a minha vida. Quando questionado sobre qual a verdadeira religião, ele riu e disse: “Gente, a fé é algo de Deus. A religião é coisa do homem. Cada um deve buscar a melhor maneira de estar ligado à sua fé.” Taí um cara que fez diferença em minha vida espiritual…

Meu Mestre na Cama

Adolescente eu li o Kamasutra, lembro que o que mais me encantou naquele livro não foram as imagens de malabarismos sexuais, nem as maneiras corretas para a aquisição de uma esposa, mas sim que sexualmente homens e mulheres eram diferentes. Que havia uniões compatíveis e uniões desiguais. Diferentes encaixes e diferentes possibilidades de amenizar as incompatibilidades e ter prazer. Ali eu sexualmente descobri a roda e o fogo (principais descobertas da humanidade). No entanto, foi com tempo que descobri que a diversidade de técnicas de sedução, união e práticas sexuais apesar de detalhadamente expostas e explicadas TIM TIM, por TIM TIM no tal livro, não diziam nada se a partilha da cama fosse só pelo sexo. Sexo por sexo é bom, quem negar é porque nunca soube aproveitar deste prazer. Mas sexo com amor é muito melhor. Tive muitos parceiros sexuais, muitos mesmo, no entanto, poucos, raríssimos amores. Queria poder citar um grande Mestre na Cama, mas falar de um, seria desmerecer os outros. Quem sabe eu não queira me comprometer em eleger um deles, porque talvez espere que ainda venha “o” tal Mestre?! Sei lá… Só tenho 37 aninhos.

Minha Mestra Maior

Minha mãe. Achei importante colocar ela aqui. Minha mãe é uma mulher extraordinária, que ficou viúva aos 36 anos após 15 anos de casamento, tempo em que sua única função foi ser esposa e mãe. Meu pai achava natural o homem ser o responsável financeiramente pela família e não queria que ela trabalhasse. Após a morte dele, podia ter se contentado com a pensão do INSS, mas preferiu buscar formação escolar e profissional e entrar no mercado de trabalho. Acabou com essa atitude se transformando em um exemplo pra nós. Sempre nos incentivou a tudo o que nos desse prazer. Nunca disse: “Não faça!” e sim “Pense, antes de fazer.” Soube ser mãe sem deixar de ser mulher, sempre foi discreta, teve namorados, só nunca quis casar, porque diz que casamento é bom, mas namorar é ainda melhor. Cresci bem e com apenas duas grandes dicas dela. “Sempre termine o que começou” e “Não te criei para ser isto ou aquilo, te criei para ser feliz!” Minha mãe é uma mulher admirável e não por ser minha mãe, mas por ser quem é.