Paulo Coelho – Uma pitada de erotismo na alquimia do sucesso

Falem o que quiser de best-sellers, mas se existe uma regra comum é: Best-seller que se preze tem que ter cena de sexo. Safadeza e traição é um requisito básico. Tudo bem que determinadas cenas são no pior estilo almanaques Julia e Momentos Íntimos que vendiam (ou vendem, nem sei) nas bancas. “O membro rijo invadiu minha gruta do amor”. Que membro? O antebraço em um fisting? Que gruta, gente? Eufemismos à parte, best-seller e sacanagem sempre rendem entretenimento e alguma safadeza.

Quer um exemplo? Paulo Coelho. Tá, eu confesso, adoro o Paulo Coelho, nem ligo de ser sacaneada por isso, falem mal à vontade, mas eis um cara que sabe entreter (e vender). Em seus livros, envolto numa aura de magia, amor, desejo, ou o que quer que seja sempre tem alguma putaria light ou às vezes nem tão light assim. É claro que a vida do cara (O Mago – de Fernando Morais) é ainda mais interessante, polêmica e safada que qualquer um de seus livros, mas se você não leu, por exemplo, Onze Minutos, leia! Tem pelo menos duas cenas muito boas de sexo. Uma bem baunilha, que é transcrita abaixo, e outra completamente S&M.

Do diário de Maria:

Não sei o que ele deve ter pensado quando abriu a porta, naquela noite, e me viu com duas malas.

– Não se assuste – comentei logo. – Não estou me mudando para cá. Vamos jantar.

Ajudou-me, sem nenhum comentário, a colocar minha bagagem para dentro. Em seguida, antes de dizer “o que é isso” ou “que alegria você aparecer”; simplesmente me agarrou e começou a beijar-me, tocar meu corpo, meus seios, meu sexo, como se tivesse esperado por tanto tempo e agora pressentisse que talvez o momento não chegasse nunca.

Tirou meu casaco, meu vestido, deixou- me nua, e foi ali no hall de entrada, sem qualquer ritual ou preparação, sem mesmo tempo para dizer o que seria bom ou ruim, com o vento frio entrando por baixo da fresta da porta, que fizemos amor pela primeira vez. Eu pensei que talvez fosse melhor dizer que parasse, que procurássemos um lugar mais confortável, que tivéssemos tempo de explorar o imenso mundo de nossa sensualidade, mas ao mesmo tempo eu o queria dentro de mim, porque era o homem que eu nunca possuíra, e nunca mais iria possuir. Por isso eu podia amá- lo com toda a minha energia, ter pelo menos, por uma noite, aquilo que jamais tivera antes, e que possivelmente nunca teria depois.

Deitou-me no chão, entrou em mim antes que eu estivesse completamente molhada, mas a dor não me incomodou – ao contrário, gostei que fosse assim, porque devia entender que eu era sua, e não precisava pedir licença. Não estava ali para ensinar mais nada, ou para mostrar como minha sensibilidade era melhor ou mais intensa que a das outras mulheres, apenas para dizer-lhe que sim, que era bem-vindo, que eu também estava esperando por isso, que me alegrava muito seu total desrespeito às regras que havíamos criado entre nós, e agora exigia que apenas nossos instintos macho e fêmea, nos guiassem. Estávamos na posição mais convencional possível – eu embaixo, de pernas abertas, e ele em cima, entrando e saindo, enquanto eu o olhava, sem vontade de fingir, de gemer, de nada – apenas querendo manter os olhos abertos, para lembrar cada segundo, ver seu rosto se transformando, suas mãos que agarravam meus cabelos, sua boca que me mordia, me beijava. Nada de preliminares, de carícias, de preparações, de sofisticações, apenas ele dentro de mim, e eu em sua alma. Entrava e saía, aumentava e diminuía o ritmo, parava às vezes para me olhar também, mas não perguntava se eu estava gostando, porque sabiá que esta era a única maneira de nossas almas se comunicarem naquele momento.

O ritmo aumentou, e eu sabia que os onze minutos estavam chegando ao fim, queria que continuassem para sempre, porque era tão bom – ah, meu Deus, como era bom – ser possuída e não possuir! Tudo de olhos bem abertos, e notei que quando já não enxergávamos direito, parecíamos ir para uma dimensão onde eu era a grande mãe, o universo, a mulher amada, a prostituta sagrada dos antigos rituais que ele havia me explicado com um copo de vinho e uma lareira acesa. Vi seu orgasmo chegando, e seus braços seguraram os meus com força. Os movimentos aumentaram de intensidade, e foi então que ele gritou – não gemeu, não mordeu os dentes, mas gritou! Berrou! Urrou como um animal! No fundo da minha cabeça passou rápido o pensamento de que a vizinhança talvez chamasse a polícia, mas isso não tinha importância,e eu senti um imenso prazer, porque era assim desde o início dos tempos, quando o primeiro homem encontrou a primeira mulher e fizeram amor pela primeira vez: eles gritaram.

Depois seu corpo desabou sobre mim, e não sei quanto tempo ficamos abraçados um ao outro, eu acariciei seus cabelos como só havia feito na noite em que nos trancamos no escuro do hotel, vi seu coração disparado ir aos poucos voltando ao normal, suas mãos começaram delicadamente a passear pelos meus braços, e aquilo fez com que todos os cabelos de meu corpo ficassem arrepiados.

Deve ter pensado em algo prático – como o peso de seu corpo em cima do meu ; porque rolou para o lado, segurou minhas mãos, e ficamos os dois olhando o teto e o lustre de três lâmpadas acesas.

– Boa noite – eu lhe disse.

Trecho do Livro Onze Minutos de Paulo Coelho

Seria ele um safado enrustido?

Sinceramente, apesar de em todos os seus livros ter uma ceninha erótica, acho que O Mago é antes de tudo um escritor muito esperto, que descobriu a fórmula do sucesso e faz uso dela de maneira muito apropriada. Diga-se de passagem. Seja promovendo o encontro de almas gêmeas (Brida) ou o reencontro de antigos amantes (Na Margem do Rio Piedra Eu Sentei e Chorei), a liberdade quase insana de quem não tem mais nada a perder (Veronika Decide Morrer) ou o erotismo da descoberta do prazer através do S&M (Onze Minutos), tanto faz. Paulo Coelho é um safado tão discreto que muitos nem percebem que o erotismo é uma pitada a mais na sua alquimia do sucesso. Se erotismo ajuda a vender caixão de defunto, porque não vender livros, né?!