Enfia o Dedo no Curry… E cheira – Gastronomia Erótica

 

Eu nem ia postar nada neste domingo. Estou sem inspiração, sem paciência, TPêMica… Afffffffffff!!! No entanto, eis que fico sabendo através dos feeds que o Branco Leone não só tem um blog de culinária, Enfia o Dedo no Curry… E cheira!, como o estilo dele é tão ou mais temperado que o curry do título.

Parece (?!) que o blog anda parado e ele divulgou porque está mudando de endereço, agora está no OPS, mas vamos torcer que ele anime novamente e volte a alimentar o blog e, consequentemente, nós leitores com seus textos que unem gastronomia e  safadeza.

Considerações sobre o comer – Parte 1

Escolhendo o que (e quem)

Com certeza, não sou o único mas, de uns tempos para cá, venho percebendo a relação direta que há entre o gosto por comer e a vontade de trepar. Se, por um lado, uma barriga muito cheia e todas as suas escatológicas decorrências podem ser (e são) fatores impeditivos para o desempenho das funções sexuais, notadamente no homem — tão dependente de uma certa paz de espírito para que possa se erguer ao trabalho —, por outro lado, pude comprovar pela pior maneira — isto é, a empírica — que mulher que não come, não fode.

É tudo muito simples de verificar, e o processo nunca me levou a enganos. Senão, vejamos: você está numa mesa de bar, conheceu a moçoila agora mesmo, já espiou para dentro de todas as frestas que pôde, ela pareceu-lhe simpática, alegre — mas não em demasia —, ela não fede a curta distância e tem bons incisivos (os outros dentes, tanto faz, não lhe prestam mesmo para nada). Você pesou prós e contras, adicionou o resultado ao número de cervejas que tomou até agora, e decidiu abrir o sobretudo e balangar o ernesto. Calma! Faça antes o teste. Se ela não passar, pode até seguir em frente, mas já vá avisado: vai desperdiçar recheio em vaca seca.

Como disse antes, o teste é deveras simples. Sem aviso, sem espiar o cardápio ou dar outro indício qualquer, mudando repentinamente de assunto, assim como lhe fosse imperioso saber a que valor fecharam hoje as ações da Petrobras PN, pergunte-lhe:

— Vamos pedir uma feijoada?

Antes de prosseguir, uma explicação. Por que uma feijoada? Ora, feijoada é prato nacional, todo mundo conhece, todo mundo faz mais ou menos do mesmo jeito; é boa mesmo quando mal-feita, de ontem, salgada, sem sal; tem um adequado “grau de repelência”, excelente para o teste em questão, porque além de carnes corriqueiras (lingüiça, charque, costelinha), tem também umas partes mais hardcore (rabo, pé, orelha), em oposição a frugais acompanhamentos (arroz, farofa, couve refogada, laranja em rodelas). É o prato perfeito para começar o teste, é o “ponto de ótimo” estatístico: mesmo aproximando-se da nojeira completa, as mais corajosas sempre terão a possibilidade de se virar com uma suave combinação de guarnições, e as de rabo frouxo sucumbirão de imediato. Mas voltemos à mesa.

Este momento — o primeiro milissegundo depois da pergunta — é de crucial importância. Será preciso ter muita concentração, toda atenção será pouca. Mesmo que ela seja tarimbada em se safar de testes, será apenas nesse curto instante que ela não conseguirá conter sua reação, caso deseje ou necessite disfarçá-la. Não vou aqui ensinar ninguém a interpretar sinais e expressões, mesmo porque há mulheres versadas na arte de dizer sins que soam como nãos, vice-versa, ou talvez quem sabe. Mas você, conseguindo localizar e extrair a verdade que os sinais carregarem, poderá chegar a um resultado bastante preciso.

Se a resposta for (ou significar) um “não”, aproveite que está de estômago vazio e vá jogar bola com os amigos. Se a resposta for (ou significar) um “sim”, a coisa começa bem. Mas não esmoreça, ainda não é hora de relaxar: ela pode ser mais treinada que você nessas artes avaliatórias, e quem pode estar sendo devassado é você. Não interrompa o teste, a menos que ela saia com algo que possa ser interpretado como “feijoada me dá um tesão…”. Mas isso, alerto, só me aconteceu uma vez. E eu já casei com a moça.

Sendo assim, é hora de passar ao Nível 2: os famigerados miúdos. Enquanto espera a feijoada — ou mesmo em busca de alternativas para a refeição —, desfie o rosário visceral da vaca. Comece pelo mais comum, aquele que sempre foi sinônimo de saúde até que todo mundo descobrisse que as vacas tomavam hormônios: o fígado. Lamba os beiços ao pensar num bifão de fígado mal-passado, mencione a textura da carne, os nervinhos, o sangue escorrendo, bom para misturar ao arroz. Observe. E uma dobradinha? Ela prefere com batata ou feijão branco? Observe. Passe aos rins, sem deixar de mencionar o cheiro de banheiro de rodoviária que invade sua cozinha (e sua casa, e a de seus vizinhos) a cada vez que você faz uma boa fritada deles. Observe. Vá à rabada, e diga que não há nada melhor para comer com polenta (aproveitando para lhe dirigir um olhar metafórico, cheio de significados). Observe. Miolos! Ah, os miolos à doré que sua mãe fazia (atenha-se aos miolos, porque mãe não é assunto pra esse tipo de mesa). Passe pelo bofe, diga que nunca comeu, mas que seu cachorro adorava. Observe. Se necessário — caso a moçoila seja mesmo dura na queda —, mencione o sarapatel, prato que consegue ser feito de tudo isso ao mesmo tempo, mais o sangue do porco (ou bode, ou o que chegar perto da faca), temperado por um — nem sempre — suave cheirinho de bosta. Se ela passar por isso tudo sem engulhos, sem interrompê-lo, e conforme a qualidade das respostas, você pode estar à frente de uma amante de grande magnitude, daquelas que fazem tudo, limpam com a língua e lambem os beiços.

Ah, você mesmo não gosta de todas essas coisas, e prefere rúcula com pão sueco? Então, esqueça. Esse teste é feito para homens.