Sedução

Um homem e uma mulher sozinhos em um quarto escuro sob muita tensão sexual. Um momento onde o verbo “revelar” não estava somente ligado à fotografia… Texto instigante, lírico e sedutor. Este é o enredo de mais um conto de Cláudia Motta, moça que além de leitora e colaboradora d”A Vida Secreta, virou amiga. Ler seus contos e relatos, sempre tão deliciosamente construídos, é sempre um grande prazer. Este conto/relato em especial é delicadamente sutil sem deixar de ser safado. E pra nós leitores, que acompanhamos suas peripécias reais ou fantásticas através de seus textos, é sempre muito gostoso mergulhar neles lentamente, até ser completamente envolvido.

Sedução – Texto enviado por Cláudia Motta

Todos têm momentos bons e ruins inesquecíveis na vida, em todos os campos de nossas vidas existem momentos que guardaremos para sempre e o engraçado é que parece que os momentos bons são guardados por nós em algum lugar de nossa “memória egoísta”, porque os queremos só para nós, não os compartilhamos quem sabe com medo que ao fazer isso esses momentos já não mais nos pertençam. De vez e quando buscamos na nossa “memória egoísta” esses momentos e nos deliciamos com as sensações que eles nos provocam. Não costumamos falar sobre eles com outras pessoas, mas podemos escrever, e assim, ao mesmo tempo em que partilhamos com outros, os tornamos reais, porque sempre que escrevemos estamos mesmo que inconscientemente imortalizado sentimentos.

Então passo a contar um jogo de sedução, o começo de um jogo que depois se mostrou bem elaborado, cheio de variantes e desafios como devem ser os jogos que dão prazer. E esse jogo definitivamente é feito de muito prazer….

Estava de férias e embora achasse que aquelas férias seriam iguais a tantas outras não podia imaginar a surpresa que a vida me reservava. Veio o convite:

– Vamos para lá?

Não sei por que na hora hesitei, vai ver que o meu inconsciente dizia que algo surpreendente me aguardava e no fundo embora gostemos de surpresas também temos medo delas, deve ser nosso instinto animal, atávico que nos põe em alerta. Mas ainda bem que gostamos de nos arriscar, desafiar nossos instintos e assim a vida torna-se mais divertida!

Resolvi aceitar o convite, embora já tivesse passado férias outras vezes no mesmo lugar, dessa vez sentia que algo diferente me aguardava. Na hora até cheguei a pensar que minha hesitação fosse produto do meu estado de espírito na ocasião, isso porque vivia um momento emocional delicado, meu noivado com um homem por quem era apaixonada passava por um período de muitas dúvidas e internamente embora o amasse sentia que estava chegando a hora de me despedir dele, sabia que precisava me decidir entre ficar com ele e possivelmente casar, mas me sentia despreparada e sabia que ele também se sentia assim ou libertar-me e libertá-lo para tomarmos outros rumos em nossas vidas e de fato foi o que aconteceu, lógico que a custa de muito sofrimento, mas hoje penso que foi o mais acertado para nós.

E assim resolvi aceitar o convite e como sempre tudo era muito agradável, o lugar lindo, a companhia de outros convidados e principalmente a companhia dele. Gostava de estar perto dele, de conversar e de tocá-lo mesmo que inocentemente, o contato do seu corpo me dava prazer e aos poucos fui percebendo que ele sentia o mesmo.

Havia um clima velado de sedução entre nós, que se manifestava numa troca mais intensa de olhares, ou de repente o olhar de um surpreender o do outro e ai desviarmos o olhar, o contato físico era sutil, um roçar de mãos, um segurar no braço por mais tempo, ou algumas vezes andar abraçados e nessas horas dava para sentir que a atração de nossos corpos era imensa!

Um dia ele perguntou:

– Você já viu como se revela uma fotografia?

– Não.

– Quer ver? É bem interessante.

Aceitei o convite fomos para o laboratório que ficava lá mesmo, entramos na câmara escura, ele me mostrou os reagentes, algumas fotos que havia revelado e estavam secando e me deu várias explicações técnicas sobre fotografia e como tirar belas fotos. Feito isso apagou a luz e começou a revelar bem mais que uma foto, começou um jogo de mostrar e esconder sentimentos e desejos, e eu acompanhávamos o jogo, hora mostrando, hora escondendo o que de fato sentia e desejava. Enquanto jogávamos com as palavras ele estava atrás de mim e podia sentir a sua respiração na minha nuca e o calor do seu corpo junto ao meu, falávamos baixo, não sei por que, era quase como se estivéssemos com medo ou muito ansiosos com o caminho que aquela conversa tomaria. Mas com o todo homem ele é objetivo e depois de algum tempo brincando com palavras me perguntou:

– Por que você me provoca?

Na hora fiquei sem saber o que responder, quer dizer não podia dizer o que queria que era: – Porque sinto um puta tesão por você! Sentia que ainda não era a hora para isso. E ai inocentemente fiz o jogo que quase toda mulher faz que é responder com outra pergunta:

– Eu te provoco?

– Provoca e muito!

– Desculpe, se faço isso é sem intenção!

Devo ter perdido muitos pontos na minha contagem de boas ações por essa deslavada mentira, mas na hora era a minha melhor escolha. Até porque, estranhamente naquele momento me sentia dividida entre meus sentimentos pelo noivo e meus sentimentos e desejos por ele. Sabia internamente que estava prestes a enveredar pelo caminho da traição e esse caminho era uma novidade em minha vida, sabia ser perigoso, mas gostar de situações perigosas já fazia parte de minha personalidade, embora eu negasse para mim mesma.

Enquanto falávamos nossos corpos estavam muito juntos, perigosamente juntos, suas mãos “ocupadas” em banhar a foto no líquido revelador de vez em quando esbarrava em meu braço, seu braço roçava de leve no meu, podia sentir o seu corpo, o calor do seu corpo, seu cheiro, seu hálito quente e isso estava me deixando absurdamente excitada, sentia minha calcinha totalmente molhada e percebia quando o corpo dele encostava no meu seu pau rijo. Era muito difícil resistir, principalmente quando ele segurou o meu rosto e falava com sua boca muito próxima da minha. Sabíamos a situação de perigo que nos envolvia, afinal a qualquer momento alguém poderia chagar e por prudência mudamos de assunto e voltamos a falar sobre fotografias era uma conversa normal, mas en off dentro de nossas cabeças” dizíamos outras coisas:

– Viu? Agora a foto já começa a aparecer, o segredo é paciência para esperar tudo tem um tempo certo.

Tradução:- Quero te comer agora! Estou morrendo de tesão! Mas sou paciente e sei que vai valer à pena esperar….

 

– Nunca imaginei que fosse tão interessante revelar uma foto.

Tradução:- Estou morrendo de vontade de te beijar. Quero sentir sua língua na minha boca, suas mãos no meu corpo! Estou morrendo de vontade de ir para a cama com você…

 

Não sei dizer por quanto tempo mais resistiríamos a vontade de nos jogar nos braços um do outro, mas ai felizmente para nós vieram nos chamar para perguntar se queríamos jogar bridge um jogo onde se faz necessário a formação de duplas, imediatamente aceitamos. Na hora pensei: – Ufa! Salva pelo gongo.

Mas sabia que o caminho a partir dali não teria mais volta, felizmente (risos) porque havíamos dito um para o outro veladamente, sem palavras o seguinte: Eu quero te ter, quero te possuir, quero te conhecer intimamente intelectual e fisicamente, quero meu corpo no seu, por minutos, horas, dias, anos não importa. E de fato foi o que acabou acontecendo, descobrimos um caminho paralelo, onde pudemos criar o espaço necessário para viver realmente esse jogo de sedução que nos fascina e alimenta e resolvemos continuar jogando, formando uma dupla de parceiros e cúmplices para e pela vida!