Kinsey – ainda falando de sexo

Dia desses assisti a um filme (dica de um leitor) de 2004, Kinsey, que conta a história do pesquisador que criou o Relatório Kinsey . Um estudo comportamental da sexualidade norte-americana da época (anos 40). Até então, não havia um estudo sério sobre o assunto. Graças a visionários como ele (e mais tarde outros também admiráveis como Masters & Johnson), a sociedade pôde ter acesso a estudos gráficos, estatísticos e chegar, senão a uma conclusão, uma noção dos hábitos sexuais de indivíduos comuns.

O que é normal para um pode não ser para outro. O que não impede que este padrão de normalidade pessoal não deva ter um limite comum, afinal somos seres sociais. É o caso de algumas parafilias como a pedofilia (desejo sexual por crianças) e necrofilia (desejo sexual por cadáveres), só para citar algumas, pois batem de frente com o desrespeito ao direito do outro e isso é inaceitável.

O filme é uma biografia da vida e obra do pesquisador, que em nome de seus projetos e estudos, eventualmente confundiu sua própria vida, familiar e social, em nome da ciência.

Apesar de ter cenas de sexo, está longe de ser um filme erótico, mas vale como referência de uma história nem tão distante. Onde mulheres, que não fossem prostitutas, sequer sabiam o que era um orgasmo, quem dirá que havia posições sexuais diferenciadas. Quando acreditavam que homossexuais eram montruosidades, masturbação levava à morte e que sexo oral atrapalhava na geração de bebês saudáveis.

Uma nota especial a uma das cenas finais do filme, quando ele pensa que todo o seu trabalho de pesquisa foi em vão e lembra do depoimento de uma entrevistada.

Uma senhora de aparência sectagenária começa o depoimento:

– Fomos casados 23 anos e tivemos três filhos maravilhosos.E assim que o mais novo saiu de casa para fazer faculdade,eu peguei um emprego,numa Fundação de Arte. Eu conheci uma mulher lá. Uma secretária do setor de manutenção da área. Nos tornamos amigas muito rápido e… Em pouco tempo, me apaixonei por ela. Foi um grande choque para mim, como deve imaginar. Quanto mais tentei ignorar, mais… poderoso isso se tornou.

E meio constrangida ela continua:

– Você não faz idéia… de como é… seus pensamentos voltarem-se contra você mesma daquele jeito. Eu não podia falar para ninguém sobre minha situação, por isso… achei outras maneiras de enfrentar a situação. Comecei a beber. Eventualmente… E meu marido me largou. Até meus filhos… se afastaram de mim. Cheguei perto de… acabar com tudo.

Ele então, demonstrando entender o sentimento dela concorda:

– Isso é só um outro lembrete de como as coisas mudaram pouco… na nossa sociedade.

E então a senhora pergunta meio surpresa:

– Sobre o que está falando? As coisas estão bem melhores.

É a vez dele ficar surpreso:

– O que aconteceu?

E ela conclui:

– Você aconteceu, é claro. Depois que li seu livro, percebi… quantas outras mulheres estavam na mesma situação… eu criei coragem de falar com minha amiga… e ela me disse, para minha grande surpresa, que os sentimentos eram mútuos. Estamos felizes juntas há três anos. O senhor salvou minha vida.