9 songs

9 Canções – 9 Songs

Cena do filme 9 canções

Tem uns filmes que eu não sei bem explicar porque, na época do lançamento eu não me interesso, mesmo toda mídia comentando, mesmo todos os amigos comentando. Foi assim com 9 Canções, filme inglês do diretor Michael Winterbottom, de 2004.

Lembro que na época do filme um candidato a namorado queria a todo custo me levar pra assistir, obviamente muito mal intencionado. Já que ele já havia assistido só e sabia que o filme tem muito mais sexo do que diálogo. Resolvi falar dele, porque acabei de assistir. Volta e meia alguém me perguntava se já havia assitido, como se fosse impossível essa mocinha pervertida aqui não ter visto. Era assim com O Império dos Sentidos também, cult-movie erótico dos anos 70.

Bem, fica aqui um comentário a meu respeito. Não sou lá tão chegada a filmes eróticos. E nem digo pornôs, pornôs eu detesto mesmo. Digo apenas que prefiro ir ao cinema para assistir a um drama, comédia ou aventura do que assistir a um filme só pelas cenas de sexo dele. É claro que se a história é bem contada tudo muda, né? No entanto, a grande maioria dos filmes não me interessa por esta ou aquela cena de nudez ou erotismo. Tem que ter muito mais que isso pra me prender diante da tela.

Assisti a 9 Canções com muita curiosidade a princípio (era recomendadíssimo) e, à medida que o filme passava, algum tédio, mas como sou persistente, prestei bastante atenção.

Matt é um glaciologista, que trabalha em expedições na Antartida, se apaixona por uma estudante americana, Lisa, durante um show de rock na Inglaterra e durante 70 minutos suas aparições na tela oscilam entre trepadas e canções.

Parece que não gostei, né?! Mas gostei. O filme me levou a reflexão…

Na primeira cena do filme, ele está em um avião sobrevoando um monte de gelo durante uma expedição de trabalho e pensa: “Quando eu me lembro de Lisa, não lembro de sua roupa, seu trabalho, de onde era ou o que dizia. Lembro do seu cheiro, seu gosto, o toque da sua pele roçando em mim…” Acho que esta cena já diz bem o que o filme será, paixão e sexo. Algo bem natural a um casal jovem, sexualmente ativo.

E foi por isso que refleti, sempre damos tanta ênfase ao sexo em nossas relações, no entanto, pautar uma relação só com base no sexo é extremamente vazia. A impressão que eu tenho do casal do filme, é que toda a história deles acontece nestas bases, tanto que em momento nenhum há uma interação deles com amigos, trabalho, família, nada assim. Mesmo os momentos em que as 9 canções acontecem, em shows ou como música de fundo, eles só interagem um com o outro. O que vai naturalmente direcionando a um necessidade cada vez maior de experiências sexualmente intensas e, consequentemente, desgastando.

Um trecho bem interessante do filme é quando acontece um quase menage com uma prostituta (quase porque ele começa junto, mas talvez por um pedido dela a deixa só com a menina) e culmina com um orgasmo solitário dela com seu vibrador. Uma nítida necessidade do próprio espaço, da própria fantasia. Depois disso há entre eles uma certa crise, ela chora, angustiada com algo que não fica claro, e ele quer entendê-la, ouví-la, mas ela simplesmente cala e chora. Ele fica ao seu lado, apenas expectador da sua angústia. Esta cena é sucedida por, outro momento solo dela diante dele, enquanto prepara o jantar e, sem nada fazer, a observa. Na cena seguinte ele vai só a um show de rock e comenta: “Cinco mil pessoas e pode-se sentir completamente só!” Bem… Ele também estava só naquele quarto com ela. Afinal, não estamos sempre sós?

É um filme de narrativa lenta, poucos sons além das vozes dos protagonistas, gemidos e som da respiração, mas 9 Canções tem também uma das melhores fotografias que já vi. É intimista, todo o filme é feito com luz natural, há nudez e sexo explícito sem em nenhum momento constranger o expectador. Nos sentimos durante todo o filme observadores daquela relação. Como se estivéssemos no mesmo quarto, a poucos centímetros, tamanha a naturalidade com que tudo acontece. Talvez por isso em determinado momento eu tenha me entediado, costumamos nos entediar com o que acontece natural demais.

Natural é respirar, além de necessário, mas nem por isso vivemos prestando atenção à nossa respiração. Acabamos acostumando com ela.

Não sei se é um filme para assistir com o nosso amor do lado, mas certamente o é para assistir, mesmo que sozinho. Masturbando-se enquanto se imagina e inspira com as cenas do filme. Ou simplesmente pensando, refletindo, comparando ao nosso modelo de relação atual. Buscando a medida.

Verei mais vezes e certamente mudarei de opinião algumas vezes mais. Sou assim. No entanto, é curioso que este filme tenha chegado um dia depois de eu ter feito uma ode aos amores sem compromisso. É pra pensar…