Lumiar, cachaça e canela

Acabei de ouvir Lumiar, do Beto Guedes, e lembrei-me de uma verdadeira viagem que fiz aos dezessete anos. Se existe uma época que podemos, e até devemos, nos dar o direito à inconseqüência é nesta fase. E a viagem, um acampamento entre amigos a um distrito de Nova Friburgo, Lumiar, teve de tudo um pouco. Foram tantos os atropelos, que começou com a condição que a mãe de duas amigas impôs – levar o irmão caçula de dez anos como contrapeso, até uma sucessão de problemas que foram acontecendo e só não nos enlouquecendo, porque a vontade de acampar era maior.

Na rodoviária, não nos deixaram (muito acertadamente) embarcar com o nosso botijão de gás. Material indispensável para fazer a comida, mas passado o stress do início, ter que alugar um maleiro para guardar às pressas, e apesar do atraso, dos males foi o menor. Chegamos à noite, um frio de 7° (só adolescentes e loucos para acampar em Lumiar no inverno). O local que íamos acampar não estava mais disponível, tivemos que ficar num cafundó lá onde o vento faz a curva e armar a barraca iluminados por umas tochas improvisadas, pois não achávamos o lampião naquele escuro. Havia um sereno tão pesado, que nem em volta da fogueira esquentávamos, nossa primeira noite foi completamente amontoados numa barraca para cinco e ouvindo a reclamação do pentelho do irmão das meninas (que acabou sendo o sexto), dizendo que o ouvido estava doendo.

O amanhecer foi lindo, isso valeu! Aquele fim de mundo era repleto de verde e pudemos ver o córrego que na noite anterior era só um barulho. Delicioso amarrar as garrafas e deixar ali, poder beber tudo geladinho como se estivesse num freezer. Eu e uma amiga tomamos banho naquele rio gelado, brincando como crianças e molhando a blusa uma da outra numa liberdade até então jamais experimentada era meu primeiro acampamento sem família. Felizmente ninguém nos observava. Depois fomos explorar o lugar, que com os nossos shorts curtos e cara de carioca, não tardou sermos imediatamente abordada pelos “locais”. É claro que as mulheres nos olhavam torto, mas os homens, dos mais jovens aos mais velhos eram pra lá de solícitos. Conseguimos pegar um botijão de gás emprestado no armazém, fazer amizade com o pessoal da padaria e marcar encontro com dois lindinhos que conhecemos na estrada. Naquela noite teria um forró e segundo eles, teríamos que provar uma das delícias da região, a cachaça com canela.

À noite, enquanto alguns se divertiam com o que eu não curtia (baseado, chá de trombeta e vinho) em volta da fogueira e ao som do violão, combinamos de nos revezar tomando conta do moleque. Eu e a amiga partimos para a cidade levando o irmão dela, mais tarde a outra viria buscá-lo com o namorado. Forró em 1986 era algo completamente surreal para nós, que só ouvíamos rock ou MPB. Não demorou muito para que os rapazes chegassem e ficassem papeando conosco. Um deles foi muito educado e atencioso com o irmãozinho dela, o que foi a salvação. Por um tempo ficamos rindo e bebericando a tal cachaça com canela, que além de deliciosa, atiçou e muito a minha libido. E como o irmão não era meu, deixei os três comendo maçã do amor e fui dar uma volta com o meu pretendente.

Encontramos a varanda de uma casa vazia e nos entregamos a um delicioso amasso. O menino era lindo, mas meio afoito. Viu a oportunidade de comer uma carioca, e veio cheio de mãos, boca e pau. Só que eu não sei exatamente por que encrenquei com ele. Até que beijava gostosinho, mas ele cismou de ficar apertando o meu mamilo, que devido o frio estava pra lá de sensível e o que podia ser um prazer parecia tortura. Juro que tentava dar uma chance ao moço, com a mão abri o zíper dele e punhetei gostoso o pau enquanto me beijava. E até deixei que ele fizesse o mesmo comigo, quem sabe masturbando ele era melhor que com a mão em meu mamilo, mas puro engano. Resolveu mamar meus peitos e me masturbar, mas foi um desastre coitadinho. Tanto que em determinado momento, falei: “Para!”, talvez encorajada pela bebida, não sei… Sei que olhei pra ele e disse: “Menino, assim não dá! Aprenda a coordenar os movimentos, seja mais delicado, meu mamilo não é botão de rádio para você ficar buscando a sintonia. Poxa…” E ele me olhou meio surpreso, e gaguejou um “mas…”. Só que já havia decidido largar o menino sozinho lá e enquanto eu me afastava ele perguntou: “A gente não vai transar?” e eu dei um sorriso meio atônito, não acreditando no que dizia. Ele só podia estar brincando. E voltei para onde estava a minha amiga, que por sinal não estava mais lá, a irmã tinha chegado e ela saído com o outro rapaz.

Foi então que minha noite deu uma guinada de 180°. O outro rapaz que tinha ido acampar conosco, ex-namorado de uma prima, estava doido de tudo. Devia ter fumado e bebido todas. Ria de tudo com um garrafão de vinho na mão, vestido num ridículo cobertor que sei lá onde ele arrumou. No entanto, doido ou não, ele percebeu que eu estava cheia de frio e puta da vida, e não sei até hoje se por boa vontade ou safadeza me chamou para ficar embaixo do tal cobertor. E ali embaixo, a coisa começou a esquentar entre nós. Confesso que estava um pouco constrangida, o namoro dele e minha prima era um rompimento recente, sem contar que tinha certeza que elas ainda voltariam, mas estava rolando uma química entre nós, que eu o deixei fazer cara de paisagem e ficar ali, sentadinho comigo, me acariciando delicadamente sob o cobertor. E enquanto cantávamos músicas do Beto Guedes no coreto da praça, eu melava e ficava molinha nos braços dele, que não ousava me dar um beijo, mas com as mãos percorria e me explorava todo o corpo. Ficamos horas assim.

E quando a minha amiga voltou, resolvemos ir para o acampamento. Eu confesso que meio zonza, pelas carícias dele. Ninguém parecia ter percebido, ou se perceberam, fingiram não perceber. Não quis fazer alarde, não estava à vontade com o acontecido, apesar de ter amado. No acampamento, mais um problema. Os doidões haviam deixado alguns cobertores ao relento, estavam completamente molhados, entre eles, o meu. Minha amiga se propôs a dividir o dela comigo, mas o chato do irmãozinho já reclamava do ouvido novamente. Me sobrou ter que uma vez mais dividir o cobertor com ele que educadamente se dispôs. Durante o caminho de volta ele havia tentado falar do episódio sob o cobertor, mas me neguei constrangida.

Na barraca, ficamos eu e ele uma vez mais juntinhos. Inicialmente costas com costas, mas sentindo meus pés congelados ele me falou ao ouvido: “Deixa de ser orgulhosa e me deixa te esquentar, vai?” e eu deixei. Passei a noite em conchinha com ele, mãos em meu seio e xota, como se eu pertencesse a ele, barba roçando no cangote, pau duro roçando em minha bunda, pernas e pés entrelaçados. É claro que não rolou nada mais que isso. Era uma barraca cheia de gente, não esqueçam, mas a proximidade do corpo dele junto ao meu… Era uma tentação. E quando eu já estava quase dormindo, ouvi-o sussurrar ao meu ouvido. “Sabe, até hoje pela manhã, apesar de te achar uma menina linda, talvez pelo fato de ter namorado a tua prima, nunca te olhei com malícia. Sempre te respeitei como amigo, mas… Quando te vi de calcinha e blusa molhada brincando naquele riu gelado…” Me virei abruptamente e perguntei assustada: “Você viu? Que vergonha, meu Deus… A gente estava brincando…” e ele continuou a falar calmamente. “Naquele momento, apesar da atitude de menina, eu te vi como mulher. E que mulher… E agora, contigo aqui abraçadinho, depois do que rolou lá na praça, não entendo como nunca antes te vi assim.” E sem dizer mais nada dormimos. Abraçadinhos.

O dia amanheceu, e com ele a necessidade de desmontar o acampamento. Curiosamente eu e ele fingíamos não ter acontecido nada, não ter dito nada. Havia sim o fantasma da relação dele com a minha prima entre nós. Entre nós nada mais rolou. Ele depois voltou para a minha prima, como era de se esperar, depois separam novamente e ele sumiu das nossas vidas. E até hoje eu não sei se foi pela aura mágica de Lumiar ou foi a cachaça com canela que me liberou ao ponto de aceitar aquelas carícias deliciosamente ousadas.