A Rena do Nariz Vermelho

Hoje estou em mais uma de minhas crises alérgicas. E é impossível não me olhar no espelho e ver a própria rena de nariz vermelho. Lembrei de um encontro que tive e hoje morro de rir, mas na época juro que eu quis chorar.

Conheci o F.C. indo pra faculdade, já até comentei aqui. E depois de um longo período de paquera partimos para um encontro. Marcamos num sábado à noite, um frio de bater queixo. Pode parecer impossível um frio de bater queixo aqui no RJ, mas carioca odeia frio e não lida bem com ele. Qualquer brisa fresca é um gelo, até porque, frio aqui é chuva e vento. Saco! Quando amanheceu o dia nublado eu confesso que lamentei ter marcado, mas em uma época sem celulares e sem esta facilidade de telefones em todo canto, desmarcar era complicado. Parece que vai muito longe este tempo, mas não.

Passei o dia espirrando, não querendo tomar um anti-histamínico para não cair no sono e ficando com o nariz cada vez mais vermelho e a cabeça dolorida. E enquanto me arrumava, minha mãe ainda tentava me convencer a dar um bolo no cara, mas eu respondia: “Dão! Você dão sabe como foi comblicado barcar este encontro. Eu vou sim!”. E continuava me arrumando entre um espirro e outro, entre um lenço de papel e outro. Vesti uma roupa quentinha, me maquiei, coloquei perfume e uma caixa de lenço de papel na bolsa e fui ao encontro.

Lá chegando, ele estava lindo, me esperando exatamente no local combinado. E já na minha chegada, quando ele foi me beijar comentou do meu perfume, disse que eu estava muito cheirosa. Aquele muito já me colocou de sobreaviso. Será que coloquei perfume demais?! Eu não sentia cheiro de nada, nunca soube ou saberei se aquele muito foi um elogio ou crítica. Fomos para um restaurante que tinha música ao vivo e mal cheguei dentro do local mais quentinho, comecei a espirrar sem parar, chegava a ser incômodo. O povo inteiro me olhava, eu espirrava e fungava como quem tinha cheirado rapé. Pedi licença e fui ao banheiro. Lavei o rosto, parei de espirrar, retoquei a maquiagem e voltei pra mesa, com o nariz mais vermelho que o do Rudolf, aquela rena do Papai Noel.

À mesa, naquele ambiente quentinho, chamegada a ele, a conversa foi fluindo e meu nariz me dando um descanso. Fiquei numa fungadeira por toda a noite, eventualmente ia ao banheiro para assuar o nariz e retocar a maquiagem e voltava para os braços dele. O ambiente era escurinho, o cara que cantava tinha uma voz gostosa, estávamos num cantinho, entre um beijo e outro meu pé brincava com a perna dele… Delícia! Até que em mais uma das minhas necessárias idas ao banheiro ele veio com a pergunta: “B. desculpa o mau jeito, mas tenho que ser direto. Que tanto você vai ao banheiro, já que nem cerveja estamos tomando? Você não está se drogando, está?!”

Caramba! Quase derreti de vergonha. Senti minha face afoguear. Não sei se explicava ou ficava com raiva do pré-julgamento dele. É claro que eu sabia o motivo da dúvida, mas perguntei por quê. E ele me disse que é porque cada vez que eu ia ao banheiro, demorava um tempão e voltava fungando e com o nariz cada vez mais vermelho. Abri então a bolsa e mostrei a caixa de lenço de papel, o remédio de nariz. Expliquei como foi meu dia, que não quis dar bolo, que minha cabeça estava um balão e que eu nem sabia como ainda estava ali, já que a vontade maior era uma cama.

Confesso que fiquei meio amuada com a falta de tato dele. Principalmente porque depois disso ele veio com uma tirada safadinha de que poderíamos arrumar um lugar mais quentinho onde tivesse cama e eu bem que quis esganar ele, mas não… Apenas respirei fundo inventei alguma desculpa esfarrapada e fui pra minha casa.

Por um bom tempo ainda o vi quando eu ia pra faculdade, e até rolavam uns beijos eventuais, mas não tivemos um segundo encontro. Sei lá, acho que não tive mais clima. Hoje em dia não saio de casa quando não estou bem, a não ser que valha muito a pena, e mesmo assim, chegando ao local já digo logo que estou numa crise de alergia daquelas. Eu era muito bobona. Fala sério…


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