Esta semana uma situação insólita me fez lembrar Antonio. É claro que ele tinha nome e sobrenome, um nome lindo, sonoro, que por motivos óbvios não vou falar aqui, nem costumo citar nomes no M&MSL, mas este Antonio foi tão importante em minha vida que é impossÃvel não falar dele.
Passei uma vida repleta de paixonites, colecionava começos, meios e finais, mas paixão verdadeira? Daquela que te enlouquece e faz perder o rumo, nenhuma até Antonio. Estava em um momento impar da minha vida. Uma bela e harmoniosa vida familiar, o melhor momento profissional que tive até hoje, mas no amor? Pffffffffffff, nada! Continuava colecionando paixões e nem sempre dando a elas este crédito, muitas eram passa tempo mesmo.
Conheci-o em uma tarde entediada que de tão cansada, decidi não viajar para ver a famÃlia, fiquei em meu apartamento minúsculo com uma enorme xÃcara de chocolate quente, um cobertor nas costas e bate-papo na internet. Na época namorava, ou saÃa apenas, não sei dizer, com um quarentão delicioso de outra cidade, que naquele final de semana era da filha. A cada quinze dias era sempre a mesma coisa. Papo vai, papo vem, em uma sala antiga do MSN que eu nem lembro mais o nome, conversava com outra pessoa quando ele chegou e me chamou em reservado, um português arranhado. Como sou meio incompetente em administrar mais de uma conversa em chats, eu apenas agradeci educadamente, mas disse que conversava com outra pessoa, infelizmente. Ele ficou encantado com o meu carinho e deixou o MSN dele, que eu anotei, mas não adicionei de imediato. Só no dia seguinte fiz isso e conversamos finalmente.
Lembro que naquele primeiro dia fiquei quatro horas conversando com aquele italiano de Napoli vinte anos mais velho que eu. E por uma daquelas coisas que jamais saberemos explicar, senti uma empatia tão grande por ele que dei não apenas o número do meu telefone celular, como também o de casa. Viciei nele, em sua voz, em sua corte a mim. Era agosto e nascia ali a minha grande e maior paixão que vivi. Repleta de intensas emoções, projeções da minha carência, eu reconheço hoje, mas na época… Amei e necessitei de Antonio como se fosse o ar que eu respirava. E sabem o mais louco? Antonio nunca, nunca tocou meu corpo, só a minha alma.
Antonio a 12000 km de mim, me controlou, fez uso, teve prazer, me deu prazer, me fez sentir amada, me fez amar, fazer coisas que jamais me imaginei permitir e… Quase me enlouqueceu! Como só as grandes e intensas paixões são capazes. Os telefonemas diários, as horas no MSN, as promessas entendidas, talvez jamais propostas, os orgasmos conduzidos em italiano ao meu ouvido… Gozava três vezes em vinte minutos de conversa diária ao ouvido. Por Antonio ousei ser B., uma B. que sempre existiu, que estava ali, só me permiti… Por ele. Ousei conhecer B., P., T. e G., um alfabeto, porque o prazer dele era o meu prazer.
Não lembro exatamente quando Antonio foi deixando de ser paixão para tornar-se constatada ilusão, talvez entre uma ou outra fluoxetina, felicidade encapsulada. No entanto, certamente isso se tornou fato no dia que eu, com passagem comprada, malas prontas para a Sardegna e quinze dias disponÃveis para nós ouvi o fatÃdico: “Não é um bom momentoâ€. Nunca saberei se este bom momento existiria… Ali morreu o momento. Aos poucos fui me distanciando, mais fluoxetina, mais vazio… Buraco que preenchi com outros tentando esquecer Antonio, mas… É impossÃvel.
Antonio deixou de ser um amor, uma paixão e transformou-se em uma chaga para sempre aberta. O que nem é um mal, afinal, graças a ele eu entro em alerta, percebo e não me permito errar de novo, não igual. Quero erros novos. Deliciosos novos erros. E não outro Antonio, outras promessas não prometidas, ser Dominada, controlada em nome do amor, da paixão, escravos um do outro. Antonio conheceu uma menina de 30 anos, não reconheceria hoje a mulher de 36, à s vezes nem eu reconheço… Tanto medo, tanta amargura…
Perdoem as palavras vomitadas… Esta B. também sou eu.