A Cantada

Já perdi as contas de quantas vezes cantei um homem. Aliás, mesmo as mais recatadas, quase sempre são as mulheres que chegam junto, mesmo sem dizer uma só palavra. Um gesto, um sorriso, um olhar desencontrado… Eu também gosto desse joguinho mudo, mas não gosto de desperdiçar oportunidades, portanto, quando é preciso eu canto o cara sim!

Quando eu estava na faculdade, ia todo dia de metrô. E como viajava sempre no mesmo horário, a gente passa a conhecer os rostos dos que também o fazem. E é claro que notei quando o F.C. entrou na composição. Pele branca, alto, meio careca, cabelos castanho-escuros e pelos nos braços e peito fazendo contraste com a pele. Fisicamente ele me agradou e muito. Aparentava uns 35 anos, chegou com um walkman e pude observar que ele trocou a fita K7, que ele gostava de rock, trocou um Pink Floyd por um Jethro Tull. É claro que ele notou que eu o observava, não parecia tímido, mas não tivemos oportunidade de trocar mais que olhares. Afinal, ele desceu poucas estações depois, enquanto eu continuei.

Nos dias seguintes, eu fiquei esperando que ele entrasse, mas isso não aconteceu, talvez tivesse sido aquela vez apenas. Lamentei, mas aceitei, fazer o que?!

Na semana seguinte, ele entrou, com aquele mesmo jeitão desligado, ouvindo seu walkman e dessa vez lendo um livro. Foi então que eu para não perder a oportunidade, cheguei perto dele.

– Oi!

– Oi… – ele respondeu meio reticente, com um meio sorriso, mas um olhar interrogativo.

– Você já leu O Alquimista de Paulo Coelho?

– Não… De Paulo Coelho só li Na Margem do Rio Piedra, mas… Confesso que não gostei muito.

– Paulo Coelho é assim, nem todo mundo gosta – falei meio displicente e continuei – Só que n’O Alquimista, tem uma passagem sensacional, onde ele cita um ditado árabe:

    “O que acontece uma vez, pode ou não acontecer uma outra vez, mas o que acontece duas vezes, certamente acontecerá um terceira.”

– É a segunda vez que eu te vejo – conclui – que bom que nos veremos mais uma vez.

E ele então abriu um sorriso, deu um suspiro e estendeu a mão para um cumprimento.

– Olha… – disse ele sorridente e surpreso – Estou sem palavras aqui! Muito prazer, F.C.

– Prazer, B. – e trocamos beijinhos no rosto.

– Eu nunca fui cantado de uma maneira tão direta e ao mesmo tempo tão sutil. Adorei.

Naquele dia conversamos, trocamos telefones e iniciamos uma paquerinha gostosa que levou a alguns encontros, mas… Isso é um outra história!