Então é Natal

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Baixou o Scrooge em mim e estava lembrando os meus natais passados. Quando pequenos, nós ansiamos o natal pelos presentes, pelas iguarias saborosas à mesa, pela primaiada que se reúne para correr no quintal da vó, mas quando ficamos adolescentes, ansiamos pela liberdade que as festas de fim de ano nos proporcionam, pelo menos comigo era assim.

Essa era a época em que eu comprava uma roupa bem linda e depois da meia noite saía com a turma pela casa dos amigos. Não estava nem aí pelo sentido da festa, confesso. Aniversário de quem?! Sorry, Jesus, but… Natal era liberdade de sair por aí depois da ceia, de casa em casa encontrando com os amigos. E o melhor, sem família do lado. 

Lembrei de um natal em especial, C. era apaixonado por mim, dava pra sentir a tensão sexual no ar quando a gente chegava perto um do outro. No fundo, eu tinha o maior tesão nele também, já naquela época era apaixonada por mentes e ele era dono de uma sensacional. Só que eu era uma idiotinha de quinze anos que lutava em ser aceita pelo grupo. Era a nerd, super racional que vivia com a cara enfiada nos livros e tentava desesperadamente ser diferente. Ser igual às minhas amigas, fútil, burra, mas popular.

C. era o cara mais feio e desengonçado da turma, o cara que não pegava ninguém, mas  quando ficava do meu lado adorava. Eu ficava horas ao seu lado só conversando. E ele passava todas as horas do meu lado só suspirando, enquanto eu, maldosamente me fingia de desentendida. Ser amiga do cara mais feio e nerd era aceitável, namorar nunca! Quando lembro isso tenho raiva de mim. 

Teve um natal que saímos eu e uma amiga em nossa via crucis social. E em determinada casa. C, e outros amigos juntaram-se a nós. Passado o tempo de liberdade, o relógio dava as badaladas limite impostas pela minha mãe e eu tinha que retornar à minha casa.

Ele e um amigo educadamente acompanharam eu e minha amiga no caminho de volta. Estavam todos de pilequinho, vinho de natal é um pecado que só se percebe no dia seguinte, felizmente eu nunca fui de beber, apenas ria das gafes alheias. Em determinado momento, minha amiga e o amigo dele se atracaram em um beijo desentupidor de pia, daqueles que a gente não sabe quem é quem de tão juntos que estavam. Sorrimos. Mudos. Continuamos a caminhar deixando o casalzinho apaixonado para trás. 

Sem palavras a tensão aumentava. C. era tímido e eu não era a adolescente mais atirada que conhecia, pelo menos não até aquele momento. Quando chegamos a uma praça que tem perto da minha casa, nos sentamos, eu tinha que esperar a minha amiga, saímos juntas, deveríamos voltar juntas era o trato, e como ela havia desaparecido com o amigo dele, esperamos ali, sozinhos na praça vazia. 

Não lembro exatamente quando ele me beijou, mas sei que quando me beijou amoleci em seus braços. Entreguei-me de maneira tão gostosa, havia tanta paixão naquele beijo. Lembro que pela primeira vez eu senti minha xota pulsar de tesão. Sentados no banco da praça, me encaixei a ele, o mais próximo que podia enlaçando-o com as minhas pernas, unindo o meu corpo ao dele com aquela pose típico do sexo tântrico, só que vestidos.

Ele teve o dom de me acender sem nenhuma grande ousadia. Havia carícias, é claro, mas nada extraordinário. Ali, só eu e ele, eu apenas sentia a energia que vinha do corpo dele, nossos chacras unidos, eu sentindo a sua respiração em minha boca, as mãos suaves a me acariciar. Sentia o pau dele tão próximo do meu sexo, latejando dentro da bermuda. Nossas roupas eram um escudo, mas eram incapazes de impedir o prazer. Não dizíamos nada. Eu não sei quanto tempo fiquei ali, gozando o momento que parecia não acabar. Deve ter sido muito tempo, muitos beijos, muitas carícias. C. me fez gozar inúmeras vezes sem penetração. Aliás, aquela altura eu nem sabia o que era gozar com alguém. Com ele eu descobri o quanto era bom gozar junto. 

Nem sei ao certo como acordamos daquele transe, mas quando olhei a hora já passava e muito do meu limite de cinderela. Saímos para procurar minha amiga, que se esfregava com o amigo dele por uma das esquinas. E juntas voltamos pra casa. 

A pior parte dessa história, e que não me orgulho nada, é que apesar de todo o prazer, todo o carinho, todo o bem estar, quando no dia seguinte ele foi à minha casa eu não quis nada com ele, disse que havíamos apenas “dado uns beijos” e isso nada significava. Ele ficou arrasado e eu me sentindo muito mal com tudo aquilo. No fundo, eu só tinha era vergonha de namorar um nerd como eu, e ao invés de ser aceita, rejeitada pelo grupo.  

Logo depois ele passou para uma faculdade longe e por muitos anos nos víamos apenas de relance nas festas. Faz uns cinco anos nos esbarramos no ponto de ônibus. Ele é biólogo, trabalha em algum projeto nos cafundós de algum lugar. Casou, teve filhos, vive a vida dele, como eu vivo a minha.

E naquele dia, quando estávamos juntos, percebi que ainda há entre nós a mesma tensão de quase vinte anos atrás. Quando minha condução chegou nos despedimos, e ao invés do habitual beijo no rosto, ele me beijou a boca. Senti o mesmo fogo dentro de mim, senti que ele também se afogueava e meio desconcertada,  mentalmente lamentei a minha bobagem de menina. 

Este é um dos meus fantasmas dos natais passados. Me valeu de lição. Depois dele eu mudei muito. E hoje não me interessa se o cara é nerd, feio, baixinho, barrigudo, desde que eu goste dele e ele de mim, é o que importa!Â