Vestiário de academia de ginástica é uma coisa, a maior concentração de mulheres nuas em um mÃnimo espaço. ImpossÃvel não reparar no design de diferentes xotas, bundas coxas e seios. Dos dezoito aos vinte e cinco fui apaixonada por academias. Ia cinco vezes por semana. Só depois com a vida adulta, trabalho demais tempo de menos, eu cometi o grande erro de trocar a academia por caminhada e hoje carrego vinte quilos a mais, e não são anilhas de peso.
Voltando ao vestiário, eu percebia que durante o banho uma menina não tirava os olhos de mim. Era baixinha, meio fofinha, mas não era mais que seis ou sete anos mais velha. Eu ia para a direita e ela tava lá, ia pra esquerda e olhar dela acompanhando. Confesso que ficava incomodada com aquilo, não via conotação sexual, mas achava estranho pra caramba. Tinha tanta mulher pelada e eu era o alvo dela, uma viúva jovem de três filhos casada pela segunda vez. Só sei de todos esses detalhes porque outra coisa que mulher faz em vestiário, além de andar pelada pra lá e pra cá, é fofocar.  Um dia eu estava atacada e perguntei:
– Minha linda, porque você me olha tanto?!
– Não olho não – ela respondeu muito sem graça.
– Olha sim, eu não sou doida. E olha mais precisamente para os meus peitos.
– Olho?!
– Olha!
– É… Eu olho… Mas me desculpa, eu não sou sapatão não – disse com uma veemência absurda.
E eu não entendi nada…
– Sabe o que é – ela foi completando sem graça – toda vez que olho você passar toda animada pra lá e pra cá eu lembro de mim…
– ???
– Vou explicar, lembro de mim a uns oito, dez anos atrás, seus seios são exatamente iguais aos meus, como eles eram três filhos e dois maridos antes – disse finalizando com um suspiro – Ai, ai…
Ontem estava diante do espelho colocando a camisola e lembrei desse comentário dela. Veio a cena completa. E hoje, com nenhum filho e mais de trinta amantes depois sou eu que me olho e suspiro:
– Ai, ai…
– Meus peitos estão caÃdos – ela diz para o namorado.
– Não, querida, não estão!
– Estão sim, eu tenho espelho em casa.
– Não meu amor, acontece que antes, seus seios apontavam para o céu e hoje eles apontam para mim.
Cena da peça “Confissões das Mulheres de Trinta†de Domingos de Oliveira.
